Hermafroditismo versus Androginia – o físico e o emocional
Oswaldo Rodrigues Jr.
psicoterapeuta sexual
Instituto Paulista de Sexualidade – www.oswrod.psc.br
Estes são assuntos que povoam a fantasia de muitas pessoas. Curiosidades sobre o que é diferente e pouco conhecido. Então é necessário saber o que são estas formas de ser e como compreender cada uma.
Hermafroditismo é uma condição biológica que implica numa mistura de genitais externos e órgãos sexuais internos.
Desde a época da Grécia Clássica, há 2500 anos, reconhece-se que alguns humanos nascem com alguma mistura entre macho e fêmea (algo que nas escrituras judaico-cristã-muçulmanas não existe, limitando a criação a dois sexos: o macho e a fêmea). O termo hermafrodita tem sido usado baseado na figura mitológica Hermafrodito, que era filho e uma mistura de Hermes (o deus grego do comércio e dos ladroes) e a deusa grega Afrodite (da beleza física e do amor).
Um hermafrodita verdadeiro é extremamente raro, isto é, nascer com todos os órgãos internos e externos de homem e de mulher.
O pseudo-hermafroditismo implica em carga genética de um sexo e genitália inadequada com os genes. O mais comum será alguma condição genital intermediária que tem recebido o nome de intersexualidade.
Existem desde causas genéticas a exposição inadequada a hormônios nas primeiras semanas de desenvolvimento do embrião.
Um exemplo de como isso pode ocorrer pode ser feito com coelhos ou bois quando se deseja que os filhotes nasçam machos, independentemente da carga genética, se injetarmos testosterona nas mães recém emprenhadas, teremos machos nascendo. Dependendo das variações individuais e possíveis condições de produções hormonais, podemos ter variações da expressão física genital dos nascituros.
Algumas doenças associadas a questões genéticas também produzem pseudo-hermafroditas, com genitália ambígua.
Para as pessoas que nascem com esta condição é a tendência em nossa cultura é ter um diagnóstico logo ao nascimento e buscar adequação genital de acordo com as melhores possibilidades para que seja o filho criado conforme o genital possível.
Nossa cultura não sabe administrar estas condições intermediárias sem reduzi-las ao binômio conhecido: macho-fêmea.
Uma pessoa que nasce com os genitais de ambos os sexo nem sempre vai poder escolher a que sexo pertencer. Esta seria uma condição muito difícil de ocorrer. Ou a modificação genital ocorre nos primeiros meses de vida, ou a pessoa é criada dentro de um padrão masculino ou feminino que na média conduzirá a decisão pela forma na qual foi criada.
- Um hermafrodita pode ser fértil?
Esta é uma pergunta e uma fantasia de muitas pessoas. Um hermafrodita não pode ser fértil. Os órgãos reprodutores não se desenvolvem adequadamente, o que impede de produzir gametas (espermatozoides e óvulos). Existiu apenas um descrição não confirmada no começo do século XX, e que parecia mais uma confusão de nomenclatura naquela época.
Uma pessoa verdadeiramente hermafrodita também não fará sexo consigo mesma, se não da mesma maneira que as outras pessoas, pela auto-erotização e masturbação.
- E a androginia?
O termo androginia se refere a uma condição na qual a expressão social e emocional não é definida a partir dos genitais e mistura o ser masculino e o ser feminino.
Claro que as variações intermediárias são muitas entre os extremos, em especial numa sociedade que não apresenta extremos tão definidos quanto já ocorreu na sociedade ocidental, a exemplo de roupas definindo o ser macho e o ser fêmea.
Uma mulher andrógina tem aparência e expressões sociais e emocionais masculinas em algum grau. No homem andrógino as expressões femininas são aparentes.
Estas pessoas são confundidas com homossexuais, mesmo que não sejam.
Androginia diz respeito às expressões sociais e emocionais e o hermafroditismo diz respeito à constituição genital física, independente das expressões emocionais e sociais (papel social).
O papel social estipulado para cada sexo em nossa cultura é definido pela família imediata na qual a pessoa nasce e por extensão pela sociedade na qual se insere. O papel social é o que caracteriza ser masculino ou feminino, então uma pessoa aprende também a ser andrógina. O aprendizado não é estático nem de modo simplista imposto ao individuo. A interação do individuo com o meio, de modo constante e diário é o que definirá o papel social mas masculino ou mais feminino, a assim também em algum grau de androginia.
Então uma pessoa hermafrodita é diferente de uma andrógina, mas pode ser andrógina da mesma forma que qualquer outro em nossa cultura.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Problemas sexuais masculinos vão muito além de disfunção erétil
Por Natasha Romanzoti em 30.08.2011 as 15:00
Segundo uma nova pesquisa, uma grande porcentagem de homens com disfunção erétil (DE) também sofre de outros problemas sexuais que não podem ser tratados com drogas.
No Brasil, 45,1% dos homens têm disfunção erétil (mínima, moderada ou completa), problema de alcançar ou manter uma ereção.
No novo estudo, os pesquisadores analisaram questionários de mais de 12.000 homens com ligeira a moderada disfunção erétil, envolvidos em ensaios clínicos para um medicamento de ereção.
Os resultados mostraram que 65% dos homens com disfunção erétil são também incapazes de ter um orgasmo, e 58% têm problemas com ejaculação.
Homens com DE grave eram mais propensos a ter problemas mais graves de ejaculação e orgasmo. No entanto, tais problemas também ocorreram em homens com disfunção erétil muito suave. Disfunção no orgasmo foi referida por 26% deste grupo, e disfunção da ejaculação por 18%.
O problema mais comum é a ejaculação precoce, mas outros problemas incluem ejaculação retardada, incapacidade de ejacular e ejaculação dolorosa. Disfunção do orgasmo é definida como ausência de orgasmo.
“Enquanto os medicamentos podem ajudar alguns homens a manter uma ereção, nossa pesquisa sugere que há outros problemas sexuais comuns que permanecem em grande parte sem solução”, disse o urologista Dario Paduch.
“Devemos expandir a definição de qualidade de vida quando se trata de desempenho sexual. Nas últimas décadas, temos nos concentrado em rigidez peniana, com ereção como sinônimo de função sexual normal. No entanto, muitos pacientes dizem que os problemas com ejaculação – como força ou volume diminuídos ou diminuição da sensação de orgasmo – são tão críticos quanto”, argumenta.
Problemas de disfunção erétil são bem conhecidos e tratados, porém, os homens provavelmente não relatam os outros problemas sexuais que têm, de modo que a porcentagem real de homens que sofrem com esses outros fatores pode ser maior. Estima-se que, dos homens com mais de 50 anos na população em geral, 30 a 40% experimentem problemas em relação ao orgasmo e ejaculação.
Mesmo que os homens conversem com os médicos sobre esses outros problemas sexuais, há muito pouco que eles podem fazer para ajudá-los.
Existem drogas para DE muito conhecidas, mas nada para as questões ejaculatórias. Condições como orgasmo e ejaculação são fisiologicamente complicadas de tratar. O Viagra, por exemplo, a primeira droga conhecida para DE, foi descoberta por acidente (foi feita originalmente para tratar pressão arterial elevada).
O próximo passo da pesquisa nesse campo é testar se terapia de reposição de testosterona poderia ajudar os homens que têm problemas sexuais além da disfunção erétil.[LiveScience]
Segundo uma nova pesquisa, uma grande porcentagem de homens com disfunção erétil (DE) também sofre de outros problemas sexuais que não podem ser tratados com drogas.
No Brasil, 45,1% dos homens têm disfunção erétil (mínima, moderada ou completa), problema de alcançar ou manter uma ereção.
No novo estudo, os pesquisadores analisaram questionários de mais de 12.000 homens com ligeira a moderada disfunção erétil, envolvidos em ensaios clínicos para um medicamento de ereção.
Os resultados mostraram que 65% dos homens com disfunção erétil são também incapazes de ter um orgasmo, e 58% têm problemas com ejaculação.
Homens com DE grave eram mais propensos a ter problemas mais graves de ejaculação e orgasmo. No entanto, tais problemas também ocorreram em homens com disfunção erétil muito suave. Disfunção no orgasmo foi referida por 26% deste grupo, e disfunção da ejaculação por 18%.
O problema mais comum é a ejaculação precoce, mas outros problemas incluem ejaculação retardada, incapacidade de ejacular e ejaculação dolorosa. Disfunção do orgasmo é definida como ausência de orgasmo.
“Enquanto os medicamentos podem ajudar alguns homens a manter uma ereção, nossa pesquisa sugere que há outros problemas sexuais comuns que permanecem em grande parte sem solução”, disse o urologista Dario Paduch.
“Devemos expandir a definição de qualidade de vida quando se trata de desempenho sexual. Nas últimas décadas, temos nos concentrado em rigidez peniana, com ereção como sinônimo de função sexual normal. No entanto, muitos pacientes dizem que os problemas com ejaculação – como força ou volume diminuídos ou diminuição da sensação de orgasmo – são tão críticos quanto”, argumenta.
Problemas de disfunção erétil são bem conhecidos e tratados, porém, os homens provavelmente não relatam os outros problemas sexuais que têm, de modo que a porcentagem real de homens que sofrem com esses outros fatores pode ser maior. Estima-se que, dos homens com mais de 50 anos na população em geral, 30 a 40% experimentem problemas em relação ao orgasmo e ejaculação.
Mesmo que os homens conversem com os médicos sobre esses outros problemas sexuais, há muito pouco que eles podem fazer para ajudá-los.
Existem drogas para DE muito conhecidas, mas nada para as questões ejaculatórias. Condições como orgasmo e ejaculação são fisiologicamente complicadas de tratar. O Viagra, por exemplo, a primeira droga conhecida para DE, foi descoberta por acidente (foi feita originalmente para tratar pressão arterial elevada).
O próximo passo da pesquisa nesse campo é testar se terapia de reposição de testosterona poderia ajudar os homens que têm problemas sexuais além da disfunção erétil.[LiveScience]
Argentina: Hay 80.000 matrimonios no consumados en el país
Hay 80.000 matrimonios no consumados en el país
29/08/11
Conflictos sexuales. Las consultas médicas de los que no pueden tener sexo con penetración aumentaron cerca del 15% en la última década. En algunos casos el problema puede generar hasta demandas judiciales en la pareja.
PorVICTORIA DE MASI
La importancia de un trabajo sobre el vínculo en terapia
El día que se dieron ese beso largo no sabían que el suyo iba a ser un “matrimonio blanco”. Marisa y Julián se pusieron de novios durante el viaje de egresados, en Bariloche. Esa relación, adolescente, inaugural, duró siete años. Como sus creencias religiosas eran fuertes, postergaron el sexo hasta el casamiento. Y cuando menos lo esperaban, tenían la noche de bodas encima: “Tiré el ramo, nos subimos a una limousine y fuimos a un hotel de lujo. Nos habían regalado esa noche antes de que partiéramos de luna de miel. La deseábamos tanto...”, recuerda Marisa, de 36 años. Pero esa noche no hubo sexo y tampoco durante los cinco años que siguieron. Marisa y su marido llegaban al orgasmo masturbándose: no existía la penetración.
Los matrimonios no consumados, en los que no hay penetración vaginal por un tiempo prolongado después del casamiento, se dan más de lo que se piensa en el país. Según una estadística del Centro de Educación, Terapia e Investigación en Sexualidad (CETIS), unas 80 mil parejas argentinas están atravesadas por este problema sexual. El CETIS monitorea el tema desde hace 21 años y ya evaluaron 453 casos.
En el 64% de las historias, fue la mujer la que manifestó que no quería o no podía ser penetrada .
Algunos matrimonios guardan el “secreto” durante mucho tiempo y lo sufren, pero en silencio. Otros, van a consultar recién cuando desean tener hijos y se dan cuenta de que, sin penetración, es imposible. Pero también están los que terminan con la anulación del matrimonio , como sucedió hace poco más de una semana en Rosario luego de que la esposa planteara en la Justicia que su marido era impotente y que así no podrían tener hijos. En el fallo, el juez de Familia Ricardo Dutto aseguró que los estudios indican que la mujer tiene “su himen intacto” y que “goza de plena aptitud sexual, de lo que se infiere que su cónyuge padece impotencia coeundi”. Esto significa que está imposibilitado de realizar el coito aun cuando existen todos los elementos para tener una erección. Según el varón, que negó padecer una disfunción eréctil, “antes y después de casarse se masturbaban mutuamente y sí había sexo oral, pero no penetración”.
El conflicto de base es que “el matrimonio blanco” no sólo bloquea la sexualidad de la pareja sino también el acceso a la maternidad y paternidad. Eso precipita la visita al especialista.
Según Juan Carlos Kusnetzoff, médico sexólogo y director del Programa de Sexología del Hospital de Clínicas, tanto en su consultorio como en el hospital las consultas por este tema crecieron alrededor del 15% en la última década. “Es un tema difícil de tratar. Las parejas vienen con vergüenza, muy incómodos”, señala Kusnetzoff.
¿Cuál es el disparador del acuerdo de no penetración? “Hay causas individuales que en la mujer pueden definirse como vaginismo , que es la contracción involuntaria de los músculos de la vagina, y la dispareunia , que es el dolor en la penetración. En el hombre se manifiesta con la eyaculación precoz y la disfunción eréctil . En ambos pueden presentarse fobias sexuales”, responde León Gindín, sexólogo y titular del CETIS, y autor de un libro sobre el tema junto a Cristina Fridman.
Aunque el “problema” lo tenga uno de los integrantes, ambos validan el síntoma, se acoplan . Por eso el tratamiento, que en el 97% de los casos es efectivo, está apuntado a la dinámica de la pareja.
La ausencia de penetración en los momentos de intimidad de una pareja se vive como un pacto y los convierte en cómplices de una situación cuyo camino es el sufrimiento. Sin embargo, a pesar de que haya un acuerdo de no penetración, estos matrimonios tienen una sexualidad que incluye masturbación, juegos eróticos y caricias, lo que implica el goce. Silvina Valente, médica ginecóloga, sexóloga y miembro de la Sociedad Argentina de Sexualidad Humana (SASH), indica que en algunas parejas en las que no se da una relación sexual completa “es válida la práctica de sexo anal para evitar la penetración vaginal”.
“En un plano inconsciente, la mujer piensa al pene como un taladro que la va a lastimar. En el varón se presenta el temor a la ‘vagina dentada’, que le va a comer su pene. Para llegar a que un individuo experimente ese tipo de fobias sexuales hay que indagar en su educación, en la relación con su padre y su madre, en sus convicciones religiosas, que pueden ser extremas”, suma Elizabeth Rodríguez Floccari, psiquiatra y miembro de la (SASH). E insiste: “ La educación sexual en la escuela es una herramienta fundamental . La información debe ser clara, real y acorde a la edad. Hay mucho desconocimiento del propio cuerpo, sobre todo en las mujeres”.
En una sociedad altamente erotizada, en la que se valora a mujeres y varones de alto rendimiento sexual, hay lugar para preguntarse si los miembros de un matrimonio no consumado tienen relaciones por afuera de la pareja. La respuesta, coincidieron los especialistas, es no. Para Rodríguez Floccari, “es un acuerdo, un secreto compartido, y no es necesario satisfacer el impulso sexual en otros espacios”.
29/08/11
Conflictos sexuales. Las consultas médicas de los que no pueden tener sexo con penetración aumentaron cerca del 15% en la última década. En algunos casos el problema puede generar hasta demandas judiciales en la pareja.
PorVICTORIA DE MASI
La importancia de un trabajo sobre el vínculo en terapia
El día que se dieron ese beso largo no sabían que el suyo iba a ser un “matrimonio blanco”. Marisa y Julián se pusieron de novios durante el viaje de egresados, en Bariloche. Esa relación, adolescente, inaugural, duró siete años. Como sus creencias religiosas eran fuertes, postergaron el sexo hasta el casamiento. Y cuando menos lo esperaban, tenían la noche de bodas encima: “Tiré el ramo, nos subimos a una limousine y fuimos a un hotel de lujo. Nos habían regalado esa noche antes de que partiéramos de luna de miel. La deseábamos tanto...”, recuerda Marisa, de 36 años. Pero esa noche no hubo sexo y tampoco durante los cinco años que siguieron. Marisa y su marido llegaban al orgasmo masturbándose: no existía la penetración.
Los matrimonios no consumados, en los que no hay penetración vaginal por un tiempo prolongado después del casamiento, se dan más de lo que se piensa en el país. Según una estadística del Centro de Educación, Terapia e Investigación en Sexualidad (CETIS), unas 80 mil parejas argentinas están atravesadas por este problema sexual. El CETIS monitorea el tema desde hace 21 años y ya evaluaron 453 casos.
En el 64% de las historias, fue la mujer la que manifestó que no quería o no podía ser penetrada .
Algunos matrimonios guardan el “secreto” durante mucho tiempo y lo sufren, pero en silencio. Otros, van a consultar recién cuando desean tener hijos y se dan cuenta de que, sin penetración, es imposible. Pero también están los que terminan con la anulación del matrimonio , como sucedió hace poco más de una semana en Rosario luego de que la esposa planteara en la Justicia que su marido era impotente y que así no podrían tener hijos. En el fallo, el juez de Familia Ricardo Dutto aseguró que los estudios indican que la mujer tiene “su himen intacto” y que “goza de plena aptitud sexual, de lo que se infiere que su cónyuge padece impotencia coeundi”. Esto significa que está imposibilitado de realizar el coito aun cuando existen todos los elementos para tener una erección. Según el varón, que negó padecer una disfunción eréctil, “antes y después de casarse se masturbaban mutuamente y sí había sexo oral, pero no penetración”.
El conflicto de base es que “el matrimonio blanco” no sólo bloquea la sexualidad de la pareja sino también el acceso a la maternidad y paternidad. Eso precipita la visita al especialista.
Según Juan Carlos Kusnetzoff, médico sexólogo y director del Programa de Sexología del Hospital de Clínicas, tanto en su consultorio como en el hospital las consultas por este tema crecieron alrededor del 15% en la última década. “Es un tema difícil de tratar. Las parejas vienen con vergüenza, muy incómodos”, señala Kusnetzoff.
¿Cuál es el disparador del acuerdo de no penetración? “Hay causas individuales que en la mujer pueden definirse como vaginismo , que es la contracción involuntaria de los músculos de la vagina, y la dispareunia , que es el dolor en la penetración. En el hombre se manifiesta con la eyaculación precoz y la disfunción eréctil . En ambos pueden presentarse fobias sexuales”, responde León Gindín, sexólogo y titular del CETIS, y autor de un libro sobre el tema junto a Cristina Fridman.
Aunque el “problema” lo tenga uno de los integrantes, ambos validan el síntoma, se acoplan . Por eso el tratamiento, que en el 97% de los casos es efectivo, está apuntado a la dinámica de la pareja.
La ausencia de penetración en los momentos de intimidad de una pareja se vive como un pacto y los convierte en cómplices de una situación cuyo camino es el sufrimiento. Sin embargo, a pesar de que haya un acuerdo de no penetración, estos matrimonios tienen una sexualidad que incluye masturbación, juegos eróticos y caricias, lo que implica el goce. Silvina Valente, médica ginecóloga, sexóloga y miembro de la Sociedad Argentina de Sexualidad Humana (SASH), indica que en algunas parejas en las que no se da una relación sexual completa “es válida la práctica de sexo anal para evitar la penetración vaginal”.
“En un plano inconsciente, la mujer piensa al pene como un taladro que la va a lastimar. En el varón se presenta el temor a la ‘vagina dentada’, que le va a comer su pene. Para llegar a que un individuo experimente ese tipo de fobias sexuales hay que indagar en su educación, en la relación con su padre y su madre, en sus convicciones religiosas, que pueden ser extremas”, suma Elizabeth Rodríguez Floccari, psiquiatra y miembro de la (SASH). E insiste: “ La educación sexual en la escuela es una herramienta fundamental . La información debe ser clara, real y acorde a la edad. Hay mucho desconocimiento del propio cuerpo, sobre todo en las mujeres”.
En una sociedad altamente erotizada, en la que se valora a mujeres y varones de alto rendimiento sexual, hay lugar para preguntarse si los miembros de un matrimonio no consumado tienen relaciones por afuera de la pareja. La respuesta, coincidieron los especialistas, es no. Para Rodríguez Floccari, “es un acuerdo, un secreto compartido, y no es necesario satisfacer el impulso sexual en otros espacios”.
Pornô feito por mulheres para mulheres
Pornô feito por mulheres para mulheres
Cai a última reserva de mercado dos homens: agora elas também dirigem filmes pornográficos
MARCELA BUSCATO COM FERNANDA COLAVITTI
MODELO, ATRIZ E DIRETORA
Courtney Trouble posa para um cartaz de divulgação de seu novo filme, Roulette (Roleta). Ela filma sexo prioritariamente homossexual do mundo underground
Um ex-templo metodista construído no século XIX – a igreja Berkeley, em Toronto, no Canadá – abrigará em 24 de abril o evento mais profano de sua história: a entrega do Prêmio do Pornô Feminista. A competição escolhe desde 2006 os melhores filmes pornográficos feitos para mulheres, e neste ano há 46 finalistas disputando um troféu em formato de pênis estilizado. Trata-se de um recorde de participantes. E de uma revolução. As mulheres, que sempre estiveram à frente das câmeras nesse tipo de produção, como atrizes, agora estão atrás das câmeras, dirigindo. Elas querem criar filmes que mostrem a sexualidade da mulher de uma forma mais positiva e que sejam, simultaneamente, mais excitantes para as próprias mulheres. Cineastas como a sueca Erika Lust, a alemã Petra Joy, a britânica Anna Span e a americana Tristan Taormino dizem que adequaram a pornografia às necessidades da mulher. “Os pornôs para mulheres mostram o que queremos ver: atrizes com quem possamos nos identificar, homens bonitos, mulheres tendo prazer e, claro, um pouco de romance”, afirma a canadense Alison Lee, gerente da Good for Her, loja pornô para o público feminino que organiza a premiação.
Esta onda de pornografia feminina é uma resposta a um fenômeno mais amplo. As mulheres viraram grandes consumidoras de conteúdo erótico. No Reino Unido, a consultoria Nielsen constatou que em apenas um ano cresceu 30% o número de mulheres que consomem pornografia por meio da internet. Nos Estados Unidos, segundo dados da consultoria Nielsen, as mulheres já representam 30% da audiência dos filmes adultos na internet. Uma enquete realizada pelo tabloide The Sun sugere que 66% das mulheres assistem a filmes pornôs e que 87% são casadas ou mantêm um relacionamento duradouro. As brasileiras não ficam atrás. Uma pesquisa feita pelo Ibope afirma que 28% do público dos sites adultos é feminino.
O principal fator que abriu às mulheres o acesso à pornografia foi a privacidade da internet. É o que diz a designer de moda carioca que prefere ser identificada como B., o pseudônimo que usa em seu blog A Vida Secreta, sobre sexo. Ela tem 38 anos e é consumidora de material erótico na internet desde 2003, quando conseguiu seu próprio computador: “Passei a buscar material mais ousado. Se não gostasse, simplesmente deletava”. A designer diz que gosta de filmes pornôs feministas porque neles a “química” entre os atores é fundamental. “Acho que toda mulher, mesmo as que curtem sexo casual, gosta de sentir um mínimo de envolvimento.” B. acredita que a pornografia melhorou sua vida sexual. “Descobri que é normal ser anormal”, diz.
As diretoras feministas colocam essa nova consumidora como alvo de seus filmes. Os enredos têm tramas mais complexas (algumas até com pretensões experimentais) em que os sentimentos das mulheres são levados em conta. Um exemplo, extraído do filme Five hot stories for her, da diretora Erika Lust: a mulher chega em casa e encontra o marido com outra, na cama. Em vez de terminar em ménage, como seria obrigatório num roteiro de pornô clássico, a cena toma outra direção. A mulher traída vai embora e procura sexo com outro homem. Há, nos filmes, muito sexo entre mulheres (há um mercado de lésbicas a ser atendido) e sexo entre homens, algo que excita as mulheres (a diretora Courtney Trouble se especializou em gays underground). Os homens são invariavelmente bonitos, em vez de truculentos. Se fosse possível resumir o movimento em um única imagem, seria algo como o seriado Sex and the city com sexo explícito. Com essas inovações, subverte-se a lógica da pornografia que deixava as feministas iradas. Elas acusavam os filmes feitos por homens de degradar a imagem da mulher e de incitar a violência sexual ao mostrar apenas a realização de fantasias masculinas: mulheres submissas que fingiam prazer e serviam de objeto sexual. Uma frase da americana Robin Morgan resume o ponto de vista das feministas sobre a pornografia tradicional: “A pornografia é a teoria, o estupro a prática”.
A invasão da indústria de entretenimento adulto pelo ponto de vista feminino começou quando pioneiras, como a americana Candida Royalle, decidiram mostrar suas ideias. No fim da década de 70, Candida, então atriz pornô que se dizia insultada pelos filmes que ela própria encenava, procurava empresas dispostas a colocar no mercado os filmes que ela planejava produzir, seguindo o que sua consciência mandava. Ela diz que sonhava com filmes que excitassem de verdade as mulheres: com uma história criativa, e não um pretexto simplista para os atores tirarem a roupa em menos de meio minuto: “Queria ver homens que parecessem ter cérebro, e não apenas um pênis ereto. E que se preocupassem em dar prazer às parceiras”. Ainda na década de 80, Candida conseguiu uma distribuidora, montou a própria produtora, a Femme Productions, e começou a fazer sucesso com filmes como Three daughters, que contava as descobertas sexuais de três irmãs.
Cai a última reserva de mercado dos homens: agora elas também dirigem filmes pornográficos
MARCELA BUSCATO COM FERNANDA COLAVITTI
MODELO, ATRIZ E DIRETORA
Courtney Trouble posa para um cartaz de divulgação de seu novo filme, Roulette (Roleta). Ela filma sexo prioritariamente homossexual do mundo underground
Um ex-templo metodista construído no século XIX – a igreja Berkeley, em Toronto, no Canadá – abrigará em 24 de abril o evento mais profano de sua história: a entrega do Prêmio do Pornô Feminista. A competição escolhe desde 2006 os melhores filmes pornográficos feitos para mulheres, e neste ano há 46 finalistas disputando um troféu em formato de pênis estilizado. Trata-se de um recorde de participantes. E de uma revolução. As mulheres, que sempre estiveram à frente das câmeras nesse tipo de produção, como atrizes, agora estão atrás das câmeras, dirigindo. Elas querem criar filmes que mostrem a sexualidade da mulher de uma forma mais positiva e que sejam, simultaneamente, mais excitantes para as próprias mulheres. Cineastas como a sueca Erika Lust, a alemã Petra Joy, a britânica Anna Span e a americana Tristan Taormino dizem que adequaram a pornografia às necessidades da mulher. “Os pornôs para mulheres mostram o que queremos ver: atrizes com quem possamos nos identificar, homens bonitos, mulheres tendo prazer e, claro, um pouco de romance”, afirma a canadense Alison Lee, gerente da Good for Her, loja pornô para o público feminino que organiza a premiação.
Esta onda de pornografia feminina é uma resposta a um fenômeno mais amplo. As mulheres viraram grandes consumidoras de conteúdo erótico. No Reino Unido, a consultoria Nielsen constatou que em apenas um ano cresceu 30% o número de mulheres que consomem pornografia por meio da internet. Nos Estados Unidos, segundo dados da consultoria Nielsen, as mulheres já representam 30% da audiência dos filmes adultos na internet. Uma enquete realizada pelo tabloide The Sun sugere que 66% das mulheres assistem a filmes pornôs e que 87% são casadas ou mantêm um relacionamento duradouro. As brasileiras não ficam atrás. Uma pesquisa feita pelo Ibope afirma que 28% do público dos sites adultos é feminino.
O principal fator que abriu às mulheres o acesso à pornografia foi a privacidade da internet. É o que diz a designer de moda carioca que prefere ser identificada como B., o pseudônimo que usa em seu blog A Vida Secreta, sobre sexo. Ela tem 38 anos e é consumidora de material erótico na internet desde 2003, quando conseguiu seu próprio computador: “Passei a buscar material mais ousado. Se não gostasse, simplesmente deletava”. A designer diz que gosta de filmes pornôs feministas porque neles a “química” entre os atores é fundamental. “Acho que toda mulher, mesmo as que curtem sexo casual, gosta de sentir um mínimo de envolvimento.” B. acredita que a pornografia melhorou sua vida sexual. “Descobri que é normal ser anormal”, diz.
As diretoras feministas colocam essa nova consumidora como alvo de seus filmes. Os enredos têm tramas mais complexas (algumas até com pretensões experimentais) em que os sentimentos das mulheres são levados em conta. Um exemplo, extraído do filme Five hot stories for her, da diretora Erika Lust: a mulher chega em casa e encontra o marido com outra, na cama. Em vez de terminar em ménage, como seria obrigatório num roteiro de pornô clássico, a cena toma outra direção. A mulher traída vai embora e procura sexo com outro homem. Há, nos filmes, muito sexo entre mulheres (há um mercado de lésbicas a ser atendido) e sexo entre homens, algo que excita as mulheres (a diretora Courtney Trouble se especializou em gays underground). Os homens são invariavelmente bonitos, em vez de truculentos. Se fosse possível resumir o movimento em um única imagem, seria algo como o seriado Sex and the city com sexo explícito. Com essas inovações, subverte-se a lógica da pornografia que deixava as feministas iradas. Elas acusavam os filmes feitos por homens de degradar a imagem da mulher e de incitar a violência sexual ao mostrar apenas a realização de fantasias masculinas: mulheres submissas que fingiam prazer e serviam de objeto sexual. Uma frase da americana Robin Morgan resume o ponto de vista das feministas sobre a pornografia tradicional: “A pornografia é a teoria, o estupro a prática”.
A invasão da indústria de entretenimento adulto pelo ponto de vista feminino começou quando pioneiras, como a americana Candida Royalle, decidiram mostrar suas ideias. No fim da década de 70, Candida, então atriz pornô que se dizia insultada pelos filmes que ela própria encenava, procurava empresas dispostas a colocar no mercado os filmes que ela planejava produzir, seguindo o que sua consciência mandava. Ela diz que sonhava com filmes que excitassem de verdade as mulheres: com uma história criativa, e não um pretexto simplista para os atores tirarem a roupa em menos de meio minuto: “Queria ver homens que parecessem ter cérebro, e não apenas um pênis ereto. E que se preocupassem em dar prazer às parceiras”. Ainda na década de 80, Candida conseguiu uma distribuidora, montou a própria produtora, a Femme Productions, e começou a fazer sucesso com filmes como Three daughters, que contava as descobertas sexuais de três irmãs.
Homofobia e universo “psi”: algumas considerações
29-08-2011 | Ciência / Comportamento / Sociedade
Homofobia e universo “psi”: algumas considerações
por Ricardo Cabral
Nos idos de 1972, um psicólogo chamado George Weinberg resolveu criar um neologismo juntando dois radicais gregos– όμός (semelhante) e φόβος (medo) — para dar conta de uma determinada questão clínica. Era a estreia da palavra homofobia, entendida por Weinberg como o “medo expresso por heterossexuais de estarem em presença de homossexuais”. Embora ainda seja uma definição usual do termo, há tempos deixou de dar conta da questão. O motivo? Simples, ao alcance de quem estiver disposto a vê-lo: trata-se de uma apreciação estritamente individual e psicológica. Sendo assim, desconsidera o caráter social, cultural, pedagógico, científico, jurídico e institucional da homofobia, entre outras tantas dimensões que vão muito além do medo, da fobia, da repulsa e mesmo do ódio a homossexuais experimentado individualmente por diversos heterossexuais. (Se bem que o problema não se restringe às definições de homofobia. Há discussões sobre as limitações do próprio termo, se ele precisaria de novas ressignificações ou se valeria substituí-lo por outro que expressasse melhor a complexidade do fenômeno. Vale conferir artigo do sociólogo Rogério Junqueira que problematiza bem essa questão.)
O momento em que o termo surgiu também é significativo, especialmente em relação ao universo “psi”. Foi por essa época, mais precisamente em 1973, que a American Psychiatric Association (APA) retirou a homossexualidade de seu DSM, sigla em inglês para Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Embora esse fato tenha sido um marco de repercussão mundial, a mudança na forma como o universo “psi” passou a olhar a homossexualidade não ocorreu instantaneamente. Afinal de contas, foram catorze anos para que o diagnóstico de “homossexualidade egodistônica” também saísse do mesmo DSM. Além disso, foi só em 1990 a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade de sua Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), outra publicação de referência que também engloba transtornos mentais. (No Brasil ela deixou de ser considerada doença, distúrbio ou perversão em 1985, primeiro pelo Conselho Federal de Medicina, e apenas em 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia). Em função desses eventos, o atual discurso da psiquiatria, da psicologia e da psicanálise até que anda afinado, embora infelizmente ainda seja comum encontrar profissionais dessas áreas com posturas patologizantes, o que só confirma o longo caminho a percorrer até o universo “psi” se tornar um bom representante da sociedade mais equânime e justa que precisamos.
E sobre o “discurso afinado” do parágrafo anterior, vale um esclarecimento. É que os dados históricos mencionados levaram a uma importante virada epistemológica (ainda em curso): o fato das homossexualidades terem deixado de ser objeto preferencial de estudo, com o foco dirigindo-se para as razões que levaram essas formas de sexualidade a serem objeto de rejeição, aversão e ódio. O jurista Daniel Borrillo tem mais a dizer:
Esse deslocamento do objeto de análise sobre a homofobia produz uma mudança tanto epistemológica quanto política. Epistemológica porque não se trata exatamente de conhecer ou compreender a origem e o funcionamento da homossexualidade, mas sim de analisar a hostilidade provocada por essa forma específica de orientação sexual. Política porque não é mais a questão homossexual, mas a homofobia que merece, a partir de agora, uma problematização particular.
Quer se trate de uma escolha de vida sexual, quer se trate de uma característica estrutural do desejo erótico por pessoas do mesmo sexo, a homossexualidade deve ser considerada tão legítima quanto a heterossexualidade. [...]
Como um atributo da personalidade, a homossexualidade deve permanecer fora do interesse interventor das instituições. Tal como a cor da pele, a opção religiosa ou a origem étnica, ela deve ser considerada um dado não pertinente na construção política do cidadão e na qualificação do sujeito de direitos. (2009, p. 16) [Grifos meus]
Essa mudança epistemológica e política surgiu a reboque dos movimentos reivindicatórios cujas lutas geraram, em boa parte dos países ocidentais, normas contra a discriminação explícita a minorias, especialmente em relação ao preconceito racial, aos direitos das mulheres e dos portadores de necessidades especiais, entre tantos. Porém, se por conta dessas normas a discriminação explícita de fato vem diminuindo — com discursos contra todo tipo de preconceito na ponta da língua da maioria —, o que se observa é que esse mesmo preconceito assumiu outras formas, tornou-se mais sutil e, consequentemente, mais difícil de combater. E no que diz respeito às minorias sexuais ainda sem leis anti-preconceito, os avanços têm sido bem mais lentos. Pior: no Brasil, cada passo na direção de uma sociedade mais tolerante e inclusiva — caso do judiciário, com o reconhecimento pelo STF da união homoafetiva como entidade familiar, e do legislativo, com a discussão da criminalização da homofobia (a passos lentos, é verdade) — parece gerar reações contrárias bastante duras. As recentes manifestações públicas do deputado Jair Bolsonaro e do pastor Silas Malafaia são um claro exemplo disso.
Manifestações desse quilate, somadas às agressões físicas e às cifras alarmantes de assassinatos de membros da comunidade LGBTT sugeririam que a homofobia aumentou nos últimos tempos. Porém, o que de fato se observa é uma maior visibilidade de crimes de ódio que existem há tempos. A grande diferença é que há cada vez mais informações, mais notícias são veiculadas sobre um tema antes tratado como inexistente. Um indicador interessante sobre esse tipo de preconceito é a pesquisa recém-publicada (julho de 2011) sobre a união estável entre homossexuais e outros temas correlatos (adoção de crianças por casais homossexuais; homossexuais ocupando cargos como médicos, policiais e professores; descobrir que um amigo é homossexual etc.). Uma primeira leitura mostra o Brasil como um país majoritariamente conservador, já que 55% dos entrevistados se mostraram contrários a união estável. Mas quando esses dados são avaliados em suas especificidades, encontramos que em diversas faixas etárias a maioria é favorável à união estável e aos demais temas envolvendo homossexuais — 51% na faixa de 30 a 39 anos; 55% na de 25 a 29 anos; e 60% na de 16 a 24 anos —, indicando que as novas gerações seriam mais tolerantes; que quanto maior escolaridade, maior aprovação; e que a maioria das mulheres também é favorável à união estável. Traçando paralelos entre alguns dados dessa pesquisa e os encontrados em outra, Juventudes e Sexualidade – UNESCO, realizada em 2001, é razoável inferir que nos últimos dez anos houve por parte dos jovens uma sensível diminuição de atitudes preconceituosas contra homossexuais.
(Pequena digressão. Em relação ao próprio sujeito, a palavra “visibilidade” reflete anseios, especialmente o de não mais precisar negar quem se é nem tampouco ser negado, anulado pelos demais por ser quem se é. Ao mesmo tempo reflete temores como o de ser posto em evidência e tornado alvo não apenas de manifestações sutis de discriminação, mas de ações inferiorizantes, desumanas, violentas, de atentados com requintes de crueldade às suas próprias vidas… Termino a digressão.)
Retornando ao universo “psi”, observamos que a despatologização das homossexualidades tem sofrido resistências, sendo que entre alguns profissionais há quem tenha manifestado as suas de maneira mais explícita. Um dos exemplos recentes e de maior repercussão foi o da psicóloga Rozângela Alves Justino, que em 24 de agosto de 2009 recebeu censura pública do Conselho Regional de Psicologia (RJ) — posteriormente ratificada pelo CFP — por infringir o código de ética da profissão ao oferecer “tratamento” para a homossexualidade, indicando com isso que a orientação sexual de caráter homoafetivo seria uma doença. Outro, anterior a ele, foi o Projeto de Lei 717/2003 apresentado à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro pelo deputado estadual Édino Fonseca, do PSC (também pastor da Assembleia de Deus), que propunha um programa estadual de “tratamento e cura” da homossexualidade a ser financiado pelo estado. O referido projeto contou com apoio tanto de grupos religiosos quanto de certo Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC). Para desagrado de ambos e em consonância com as diretrizes dos Conselhos Federais de Medicina e de Psicologia, o referido PL acabou rejeitado por trinta votos contra seis no dia 8 de dezembro de 2004.
Por mais que seja desconfortável admiti-lo, esse tipo de ação por parte de alguns profissionais do campo “psi” não deveria surpreender. Embora se espere que constituam uma categoria esclarecida em torno do assunto, trata-se de um grupo composto por pessoas do seu tempo, com suas concepções de mundo, suas ideologias, tendo suas identidades pessoais e profissionais atravessadas pela educação, pela classe social, pela origem (social, geográfica etc.) pelo gênero, pela geração, pela eventual formação religiosa, pelas relações de poder e por tantas outras instâncias e dimensões que nos fazem os humanos que somos. Consequentemente, é justo pensar que parte do grupo se sinta ameaçada pela desestabilização que as lutas em torno das políticas sexuais provocam no sistema sócio-sexual (cf. Welzer-Lang, 2009), isto é, que temam o que para eles se configura como ameaça à dominação masculina e à heteronormatividade. Talvez não houvesse gravidade se apenas sentissem e guardassem esses sentimentos para si — num equivalente da “aceitação” do homoerotismo, desde que discreto e de preferência “dentro do armário”. O nó da questão está em como tais representantes desse campo de saber-poder lidam com isso, ou seja, que discursos, práticas e “verdades” são ditas e postas em prática por eles em nome da medicina e da clínica e que só se prestam à defesa e manutenção da naturalização da heterossexualidade.
Em torno da heteronormatividade, Daniel Borrillo tem também algo a dizer:
A lembrança constante da superioridade biológica e moral dos comportamentos heterossexuais faz parte de uma estratégia política de construção da normalidade sexual. A heterossexualidade aparece, assim, como o padrão com o qual todas as outras sexualidades devem ser comparadas e medidas. É essa qualidade normativa — e o ideal que ela encarna — que constitui uma forma específica de dominação chamada heterossexismo. Este pode ser definido como a crença na existência de uma hierarquia das sexualidades, em que a heterossexualidade assume posição superior. Todas as outras formas são qualificadas, na melhor das hipóteses, como incompletas, acidentais e perversas, e na pior, como patológicas, criminosas, imorais e destruidoras da civilização. (op. cit., p. 25)
É a serviço dessa qualificação das sexualidades que boa parte dos saberes “psi” se prestou ao longo da história. E não apenas em suas práticas, mas também na produção de um saber permeado de preconceitos entranhados. Nesse sentido, coube à psicanálise um importante papel, seja como crítica ao discurso da psiquiatria, da sexologia e do aparato jurídico do século XIX acerca da sexualidade — onde a homossexualidade era marcadamente patológica, aberrante e merecedora de sanções jurídicas —, seja como ratificadora de uma heteronormatividade. Para começar, em seu artigo “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) Freud tratou da homossexualidade como uma orientação sexual tão legítima quanto a heterossexualidade, acrescentando que
[...] a psicanálise considera [...] que a independência da escolha objetal em relação ao sexo do objeto, a liberdade de dispor igualmente de objetos masculinos e femininos, tal como observada na infância, nas condições primitivas e nas épocas pré-históricas, é a base originária da qual mediante a restrição num sentido ou noutro, desenvolvem-se tanto o tipo normal como o invertido. No sentido psicanalítico, o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher também é também um problema que exige esclarecimento, e não uma evidência indiscutível que se possa atribuir a uma atração de base química. (Freud, 1905, s. p.). [Grifos meus]
Foi um posicionamento ousado para a época. Além disso, não perdeu sua atualidade, inscrevendo-se claramente na mudança epistemológica de que tratei em parágrafos anteriores. Para a psicanálise, ao contrário dos instintos nos animais, no ser humano a pulsão sexual não tem objeto fixo. Neste,
[...] o objeto da pulsão é diversificado, anárquico, plural e parcial; exprime-se de várias formas: oral, anal, escopofílica, vocal, sádica, masoquista, dentre outras. Com isso, Freud divorcia a sexualidade de uma estreita relação com os órgãos sexuais, passando a considerá-la como uma função abrangente em que o prazer é sua finalidade principal, sendo a reprodução uma meta secundária. Além disso, ao postular que a sexualidade vai além dos órgãos genitais, o autor leva ‘as atividades sexuais das crianças e dos pervertidos para o mesmo âmbito que o dos adultos normais’ (Ceccarelli, 2008, p. 74)
Haveria, portanto, uma disposição bissexual original em todo ser humano e só a partir do complexo de Édipo é que se constituiria a “escolha do objeto” (hétero, homo etc.). Há, porém, um ponto limitador: o fato da psicanálise restringir a noção de diferença sexual a uma única matriz binária, as oposições entre feminino/masculino, sexo/gênero, natureza/cultura e heterossexualidade/homossexualidade. Ela não comportaria, por exemplo, a experiência da transexualidade, que só poderia ser vista por um viés patológico já que nela não haveria conformidade entre sexo biológico e gênero. Esse entendimento de parte da psicanálise também é compartilhado pela sexologia e pela psiquiatria, tratando-se de “[...] uma concepção normativa seja dos sistemas de sexo-gênero, seja do dispositivo ‘diferença sexual’. Ambas estão fundadas numa matriz binária heterossexual que se converte em sistema regulador da sexualidade e da subjetividade” (Arán, 2006, p. 50) [grifos meus].
Percebe-se então que nem tudo são flores na teorização psicanalítica em torno das homossexualidades. Nos mesmos “Três ensaios…”, o pai da psicanálise discorre em uma nota de rodapé sobre a constituição da homossexualidade (masculina), dizendo que “Nos tipos invertidos pode-se quase sempre confirmar o predomínio de constituições arcaicas e mecanismos psíquicos primitivos. A vigência da escolha narcísica de objeto e a retenção da importância erótica da zona anal figuram como suas características mais essenciais” (id.) [Grifos do autor]. Estas características indicariam uma espécie de “retardamento do desenvolvimento psíquico” do sujeito homossexual, subentendendo-se que a heterossexualidade seria matriz e referência de normalidade. Embora se afirme que Freud deixou a questão da homossexualidade em aberto, durante boa parte da história desse saber ela foi “[...] mantida no quadro clínico das perversões, fixada às fases pré-genitais, pré-edípicas, pré-simbólicas ou pré-qualquer-coisa que definiriam o sujeito homossexual como alguém que carece de algo — no mínimo normalidade e moralidade” (Vale, 2008, p. 119).
Na medicina brasileira, por sua vez, temos um exemplo representativo de medicalização da sexualidade: os “experimentos com homossexuais efeminados” realizados pelo Dr. Leonídio Ribeiro, na década de 1930. Ele montou o Laboratório de Antropologia Criminal, realizando experimentos sobre identificação civil e criminal. “Em pauta [...] estavam ‘a patologia da impressão digital, os tipos sanguíneos dos índios guaranis, os biótipos criminais afro-brasileiros e as relações entre a homossexualidade masculina e o mal-funcionamento endócrino’” (ibid., p. 121) [Grifos meus]. Com auxílio da polícia, Ribeiro reuniu 195 “homossexuais profissionais” e levou-os ao seu laboratório para então fotografá-los e medi-los. Buscava encontrar alguma relação entre sua aparência física e sua sexualidade. “O alvo [...] eram os efeminados que se prostituíam. Além dos ossos, a distribuição capilar pelo corpo, púbis e cabeça constituía-se ‘num meio excelente de identificar disfunções hormonais e, assim, a homossexualidade’ ” (id.).
Há inúmeros exemplos da medicina, da sexologia, da psicologia e da psicanálise a respeito das homossexualidades, mas creio que para as pretensões deste texto estes sejam suficientes. O que verdadeiramente interessa aqui é a questão da homofobia e o lugar dos atores do campo “psi”, de seus saberes e de suas práticas. Nesse sentido, descrevi como num primeiro momento a homofobia circunscreveu-se ao sujeito psicológico e que hoje em dia essa apreciação foi (e ainda precisa ser) estendida para outros campos. Isso porque a homofobia é um fenômeno socialmente partilhado, tributário de uma cultura falocêntrica onde a o apelo à virilidade é a norma — e a violência é a maneira usual de atender a esse apelo —, fazendo com que as referidas abordagens médicas e clínicas sejam insuficientes para dar conta dela. Ao mesmo tempo essas abordagens se prestaram (e eventualmente ainda se prestam) para normatizar a sexualidade, reiterando a matriz heterossexual e reprodutiva e, consequentemente, “psiquiatrizando” o prazer dito perverso, do qual a homossexualidade seria “o centro organizador do discurso sobre o desvio sexual” (Lanteri-Laura apud Arán, op. cit. p. 52).
Dentro desse quadro, como os integrantes do universo “psi” deveriam agir em relação à homofobia? Pelo apresentado até o momento fica evidente não haver somente uma resposta, seja pela própria diversidade do universo “psi”, seja pelo caráter plural e polissêmico do termo. Mas algumas questões podem ser levantadas, começando por uma reiteração incessante e inequívoca da despatologização das homossexualidades inaugurada a partir de sua retirada do DSM e do CID. Outro ponto seria evitar patologização da própria homofobia, ou ao menos evitar lidar com ela exclusivamente nesses termos. Não que os comportamentos homofóbicos estejam totalmente livres de dimensões patológicas, mas objetivar a homofobia meramente como doença é insistir num embate estéril onde um lado trata de atribuir ao outro o rótulo de doente por meio de discursos medicalizados. Espera-se também que os profissionais “psi” mantenham-se sempre críticos em relação as suas próprias práticas e a sua produção teórica. Quanto às práticas, convém esvaziar o lugar parametrizador que sempre lhes coube a respeito do tema, um papel que se presta tanto à re-patologização das homossexualidades quanto à (hetero)normatização. (Por isso atenção, profissionais “psi”, pensem quinze vezes antes de aceitar o papel de especialistas em programas de televisão, combinado?)
Sobre as formulações teóricas, tenho um claro porém. Ele diz respeito às pesquisas que ainda insistem em encontrar as “causas naturais” das homossexualidades, num claro retrocesso em relação à mudança epistemológica de que falei anteriormente. Ocorre que tentar legitimar as identidades homossexuais, bissexuais e transgêneros por meio de pesquisas que busquem diferenças genéticas, hormonais, na morfologia do cérebro e que tais, não garante a diminuição da discriminação nem o fim das fronteiras jurídicas que hoje existem entre as sexualidades. Arrisco a dizer que o contrário é mais provável. Insistir no caminho do essencialismo biológico é desconsiderar que há razões éticas suficientemente sólidas para se exigir o devido reconhecimento da diversidade sexual e de gênero. Além disso, se o histórico sobre a discriminação das homossexualidades se caracterizou pela hierarquia – com a masculinidade hegemônica no topo – e pela normatividade, atualmente há outro mais “moderno”: por mais surpreendente que pareça, trata-se justamente daquele que afirma a diversidade das sexualidades. Não se trata mais de afirmar a superioridade heterossexual, mas de defender e “proteger” a diversidade. Graças a esse mecanismo político, ao mesmo tempo em que as manifestações homofóbicas mais explícitas e violentas passam a ser coibidas, a afirmação da diversidade “[...] torna possível retirar gays e lésbicas do direito comum (universal) e inscrevê-los em um regime de exceção (particular)” (Borrillo, op. cit., p. 32). Essa lógica diferencialista já serviu para impedir que as mulheres votassem e que negros tivessem os mesmos direitos que brancos. É a mesma lógica que concede alguns direitos aos não heterossexuais, mas nunca a igualdade de direitos, já que as diferenças exigiriam um regime jurídico igualmente diferenciado.
A criminalização da homofobia será um importante passo para coibir os alarmantes índices de violência que mancham a imagem de um país como o Brasil, dito tolerante. Mas a repressão não basta. É preciso prevenção, o que implica em ações pedagógicas. Se a invisibilidade resulta em desconhecimento ou indiferença diante do tema, é preciso torná-lo visível, começando pelo questionamento da ordem heterossexista, essa mesma que se reafirma a cada atitude preconceituosa que infra-humaniza quem não corresponda a certas expectativas quanto ao gênero. Em outras palavras, são necessárias ações pedagógicas envolvendo famílias, escola, instituições e, porque não, toda sorte de profissionais que detêm algum poder de influência sobre a questão, caso de representantes dos poderes legislativo, executivo e judiciário, assim como também os profissionais da saúde, verdadeiras autoridades aos olhos do público leigo. Nesse sentido, ao menos em relação aos psicólogos há muito sendo feito a favor do combate à homofobia e contra a (re-)patologização das homossexualidades. A Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia, de 22 de março de 1999, por exemplo, foi a primeira regulamentação em defesa da livre orientação sexual a ser publicada entre todos os conselhos profissionais do país, estabelecendo normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual, determinando em quatro dos seus seis artigos que:
1) “os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade”; 2) “[...] deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas”; 3) “[...] não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”; 4) “[...] não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica”, além de um parágrafo único que veta a colaboração dos psicólogos “[...] com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”.
Além dessa resolução, o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP SP) lançou em maio deste ano um manifesto em apoio à Campanha Internacional Stop Trans Pathologization-2012, pela despatologização das identidades trans (travestis, transexuais e transgêneros) e a sua retirada dos catálogos de doenças (o DSM e a CID). Trata-se de uma ampliação do debate em torno das homossexualidades, já que travestis, transexuais e transgêneros seguem enquadrados na categoria psicopatológica “transtornos da identidade sexual”, além de serem as vítimas preferenciais das formas mais violentas de discriminação homofóbica, ao mesmo tempo em que são as mais invisíveis aos olhos do restante da sociedade. Esse tipo de manifesto se dirige não apenas ao público em geral, mas aos próprios psicólogos. Como profissionais do campo “psi”, precisam submeter-se a ações pedagógicas para que deixem de ratificar a heteronormatividade e repremir os que se desviam dela. Que venham mais iniciativas como essa. Nós, psicólogos, agradecemos.
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Referências
ARÁN, Márcia. A transexualidade e a gramática normativa do sistema sexo-gênero. Ágora (Rio de Janeiro) v. IX n. 1 jan/jun 2006 49-63.
BEZERRA JÚNIOR, Benilton. O desgaste de um conceito. Jornal Folha de SP, Caderno MAIS!, 3 de Dezembro de 1995.
BORRILLO, Daniel. A homofobia. In: LIONÇO, Tatiana e DINIZ, Debora (orgs). Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: LetrasLivres : EdUnB, 2009.
CARRARA, Sérgio; VIANNA, Adriana R. B. “Tá lá o corpo estendido no chão…”: a violência letal contra travestis no município do Rio de Janeiro. Physis: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 16(2):233-249, 2006.
CECCARELLI, Paulo Roberto. A invenção da homossexualidade. Revista Bagoas, n° 2, 2008, p. 71-93.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
LACERDA, Marcos, PEREIRA, Cícero; CAMINO, Leoncio. Um Estudo sobre as Formas de Preconceito contra Homossexuais na Perspectiva das Representações Sociais. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2002, 15(1), p. 165-178.
LIONÇO, Tatiana e DINIZ, Debora (orgs). Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: LetrasLivres : EdUnB, 2009.
MARQUES, Luciana Pereira. As homossexualidades na psicanálise. Trivium – Estudos Interdisciplinares, ano II, edição II, 2010, p. 467-84.
PEREIRA, Cícero .R. et al. Preconceito contra homossexuais e representações sociais da homossexualidade em seminaristas católicos e evangélicos. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Jan-Mar 2011, Vol. 27 n. 1, pp. 73-82.
VALE, Alexandre F. C. Antropologia e sexualidade: por um descentramento da enunciação científica. Revista Bagoas, n° 2, 2008, p. 115-132.
VIEIRA, Luciana Leila Fontes. As múltiplas faces da homossexualidade na obra freudiana. Revista Mal-estar e Subjetividade, Fortaleza, Vol. IX, Nº 2, p. 487-525 – jun/2009
WELZER-LANG, DANIEL. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Estudos Feministas, v. 9, nº 2(2001), p. 460-82.
Sugestões de leitura
Antes dos livros referenciados abaixo, recomendo um post do blog InQuIeTuDiNe, de Érika Pretes (advogada, militante do movimento LGBT e pesquisadora de direitos humanos) intitulado “Gay? Eu?”.
BORRILLO, Daniel. Homofobia: história e crítica de um preconceito. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.
COSTA, Jurandir Freire. A Inocência e o Vício: Ensaios Sobre o Homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992.
_______. A Face e o Verso: Estudos Sobre o Homoerotismo II. São Paulo: Escuta, 1995.
LIONÇO, Tatiana e DINIZ, Debora (orgs). Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: LetrasLivres : EdUnB, 2009.
Psicólogo clínico (psicoterapeuta de orientação existencial) e mestre em educação tecnológica (CEFET/RJ).
Ricardo Cabral
Homofobia e universo “psi”: algumas considerações
por Ricardo Cabral
Nos idos de 1972, um psicólogo chamado George Weinberg resolveu criar um neologismo juntando dois radicais gregos– όμός (semelhante) e φόβος (medo) — para dar conta de uma determinada questão clínica. Era a estreia da palavra homofobia, entendida por Weinberg como o “medo expresso por heterossexuais de estarem em presença de homossexuais”. Embora ainda seja uma definição usual do termo, há tempos deixou de dar conta da questão. O motivo? Simples, ao alcance de quem estiver disposto a vê-lo: trata-se de uma apreciação estritamente individual e psicológica. Sendo assim, desconsidera o caráter social, cultural, pedagógico, científico, jurídico e institucional da homofobia, entre outras tantas dimensões que vão muito além do medo, da fobia, da repulsa e mesmo do ódio a homossexuais experimentado individualmente por diversos heterossexuais. (Se bem que o problema não se restringe às definições de homofobia. Há discussões sobre as limitações do próprio termo, se ele precisaria de novas ressignificações ou se valeria substituí-lo por outro que expressasse melhor a complexidade do fenômeno. Vale conferir artigo do sociólogo Rogério Junqueira que problematiza bem essa questão.)
O momento em que o termo surgiu também é significativo, especialmente em relação ao universo “psi”. Foi por essa época, mais precisamente em 1973, que a American Psychiatric Association (APA) retirou a homossexualidade de seu DSM, sigla em inglês para Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Embora esse fato tenha sido um marco de repercussão mundial, a mudança na forma como o universo “psi” passou a olhar a homossexualidade não ocorreu instantaneamente. Afinal de contas, foram catorze anos para que o diagnóstico de “homossexualidade egodistônica” também saísse do mesmo DSM. Além disso, foi só em 1990 a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade de sua Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), outra publicação de referência que também engloba transtornos mentais. (No Brasil ela deixou de ser considerada doença, distúrbio ou perversão em 1985, primeiro pelo Conselho Federal de Medicina, e apenas em 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia). Em função desses eventos, o atual discurso da psiquiatria, da psicologia e da psicanálise até que anda afinado, embora infelizmente ainda seja comum encontrar profissionais dessas áreas com posturas patologizantes, o que só confirma o longo caminho a percorrer até o universo “psi” se tornar um bom representante da sociedade mais equânime e justa que precisamos.
E sobre o “discurso afinado” do parágrafo anterior, vale um esclarecimento. É que os dados históricos mencionados levaram a uma importante virada epistemológica (ainda em curso): o fato das homossexualidades terem deixado de ser objeto preferencial de estudo, com o foco dirigindo-se para as razões que levaram essas formas de sexualidade a serem objeto de rejeição, aversão e ódio. O jurista Daniel Borrillo tem mais a dizer:
Esse deslocamento do objeto de análise sobre a homofobia produz uma mudança tanto epistemológica quanto política. Epistemológica porque não se trata exatamente de conhecer ou compreender a origem e o funcionamento da homossexualidade, mas sim de analisar a hostilidade provocada por essa forma específica de orientação sexual. Política porque não é mais a questão homossexual, mas a homofobia que merece, a partir de agora, uma problematização particular.
Quer se trate de uma escolha de vida sexual, quer se trate de uma característica estrutural do desejo erótico por pessoas do mesmo sexo, a homossexualidade deve ser considerada tão legítima quanto a heterossexualidade. [...]
Como um atributo da personalidade, a homossexualidade deve permanecer fora do interesse interventor das instituições. Tal como a cor da pele, a opção religiosa ou a origem étnica, ela deve ser considerada um dado não pertinente na construção política do cidadão e na qualificação do sujeito de direitos. (2009, p. 16) [Grifos meus]
Essa mudança epistemológica e política surgiu a reboque dos movimentos reivindicatórios cujas lutas geraram, em boa parte dos países ocidentais, normas contra a discriminação explícita a minorias, especialmente em relação ao preconceito racial, aos direitos das mulheres e dos portadores de necessidades especiais, entre tantos. Porém, se por conta dessas normas a discriminação explícita de fato vem diminuindo — com discursos contra todo tipo de preconceito na ponta da língua da maioria —, o que se observa é que esse mesmo preconceito assumiu outras formas, tornou-se mais sutil e, consequentemente, mais difícil de combater. E no que diz respeito às minorias sexuais ainda sem leis anti-preconceito, os avanços têm sido bem mais lentos. Pior: no Brasil, cada passo na direção de uma sociedade mais tolerante e inclusiva — caso do judiciário, com o reconhecimento pelo STF da união homoafetiva como entidade familiar, e do legislativo, com a discussão da criminalização da homofobia (a passos lentos, é verdade) — parece gerar reações contrárias bastante duras. As recentes manifestações públicas do deputado Jair Bolsonaro e do pastor Silas Malafaia são um claro exemplo disso.
Manifestações desse quilate, somadas às agressões físicas e às cifras alarmantes de assassinatos de membros da comunidade LGBTT sugeririam que a homofobia aumentou nos últimos tempos. Porém, o que de fato se observa é uma maior visibilidade de crimes de ódio que existem há tempos. A grande diferença é que há cada vez mais informações, mais notícias são veiculadas sobre um tema antes tratado como inexistente. Um indicador interessante sobre esse tipo de preconceito é a pesquisa recém-publicada (julho de 2011) sobre a união estável entre homossexuais e outros temas correlatos (adoção de crianças por casais homossexuais; homossexuais ocupando cargos como médicos, policiais e professores; descobrir que um amigo é homossexual etc.). Uma primeira leitura mostra o Brasil como um país majoritariamente conservador, já que 55% dos entrevistados se mostraram contrários a união estável. Mas quando esses dados são avaliados em suas especificidades, encontramos que em diversas faixas etárias a maioria é favorável à união estável e aos demais temas envolvendo homossexuais — 51% na faixa de 30 a 39 anos; 55% na de 25 a 29 anos; e 60% na de 16 a 24 anos —, indicando que as novas gerações seriam mais tolerantes; que quanto maior escolaridade, maior aprovação; e que a maioria das mulheres também é favorável à união estável. Traçando paralelos entre alguns dados dessa pesquisa e os encontrados em outra, Juventudes e Sexualidade – UNESCO, realizada em 2001, é razoável inferir que nos últimos dez anos houve por parte dos jovens uma sensível diminuição de atitudes preconceituosas contra homossexuais.
(Pequena digressão. Em relação ao próprio sujeito, a palavra “visibilidade” reflete anseios, especialmente o de não mais precisar negar quem se é nem tampouco ser negado, anulado pelos demais por ser quem se é. Ao mesmo tempo reflete temores como o de ser posto em evidência e tornado alvo não apenas de manifestações sutis de discriminação, mas de ações inferiorizantes, desumanas, violentas, de atentados com requintes de crueldade às suas próprias vidas… Termino a digressão.)
Retornando ao universo “psi”, observamos que a despatologização das homossexualidades tem sofrido resistências, sendo que entre alguns profissionais há quem tenha manifestado as suas de maneira mais explícita. Um dos exemplos recentes e de maior repercussão foi o da psicóloga Rozângela Alves Justino, que em 24 de agosto de 2009 recebeu censura pública do Conselho Regional de Psicologia (RJ) — posteriormente ratificada pelo CFP — por infringir o código de ética da profissão ao oferecer “tratamento” para a homossexualidade, indicando com isso que a orientação sexual de caráter homoafetivo seria uma doença. Outro, anterior a ele, foi o Projeto de Lei 717/2003 apresentado à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro pelo deputado estadual Édino Fonseca, do PSC (também pastor da Assembleia de Deus), que propunha um programa estadual de “tratamento e cura” da homossexualidade a ser financiado pelo estado. O referido projeto contou com apoio tanto de grupos religiosos quanto de certo Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC). Para desagrado de ambos e em consonância com as diretrizes dos Conselhos Federais de Medicina e de Psicologia, o referido PL acabou rejeitado por trinta votos contra seis no dia 8 de dezembro de 2004.
Por mais que seja desconfortável admiti-lo, esse tipo de ação por parte de alguns profissionais do campo “psi” não deveria surpreender. Embora se espere que constituam uma categoria esclarecida em torno do assunto, trata-se de um grupo composto por pessoas do seu tempo, com suas concepções de mundo, suas ideologias, tendo suas identidades pessoais e profissionais atravessadas pela educação, pela classe social, pela origem (social, geográfica etc.) pelo gênero, pela geração, pela eventual formação religiosa, pelas relações de poder e por tantas outras instâncias e dimensões que nos fazem os humanos que somos. Consequentemente, é justo pensar que parte do grupo se sinta ameaçada pela desestabilização que as lutas em torno das políticas sexuais provocam no sistema sócio-sexual (cf. Welzer-Lang, 2009), isto é, que temam o que para eles se configura como ameaça à dominação masculina e à heteronormatividade. Talvez não houvesse gravidade se apenas sentissem e guardassem esses sentimentos para si — num equivalente da “aceitação” do homoerotismo, desde que discreto e de preferência “dentro do armário”. O nó da questão está em como tais representantes desse campo de saber-poder lidam com isso, ou seja, que discursos, práticas e “verdades” são ditas e postas em prática por eles em nome da medicina e da clínica e que só se prestam à defesa e manutenção da naturalização da heterossexualidade.
Em torno da heteronormatividade, Daniel Borrillo tem também algo a dizer:
A lembrança constante da superioridade biológica e moral dos comportamentos heterossexuais faz parte de uma estratégia política de construção da normalidade sexual. A heterossexualidade aparece, assim, como o padrão com o qual todas as outras sexualidades devem ser comparadas e medidas. É essa qualidade normativa — e o ideal que ela encarna — que constitui uma forma específica de dominação chamada heterossexismo. Este pode ser definido como a crença na existência de uma hierarquia das sexualidades, em que a heterossexualidade assume posição superior. Todas as outras formas são qualificadas, na melhor das hipóteses, como incompletas, acidentais e perversas, e na pior, como patológicas, criminosas, imorais e destruidoras da civilização. (op. cit., p. 25)
É a serviço dessa qualificação das sexualidades que boa parte dos saberes “psi” se prestou ao longo da história. E não apenas em suas práticas, mas também na produção de um saber permeado de preconceitos entranhados. Nesse sentido, coube à psicanálise um importante papel, seja como crítica ao discurso da psiquiatria, da sexologia e do aparato jurídico do século XIX acerca da sexualidade — onde a homossexualidade era marcadamente patológica, aberrante e merecedora de sanções jurídicas —, seja como ratificadora de uma heteronormatividade. Para começar, em seu artigo “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) Freud tratou da homossexualidade como uma orientação sexual tão legítima quanto a heterossexualidade, acrescentando que
[...] a psicanálise considera [...] que a independência da escolha objetal em relação ao sexo do objeto, a liberdade de dispor igualmente de objetos masculinos e femininos, tal como observada na infância, nas condições primitivas e nas épocas pré-históricas, é a base originária da qual mediante a restrição num sentido ou noutro, desenvolvem-se tanto o tipo normal como o invertido. No sentido psicanalítico, o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher também é também um problema que exige esclarecimento, e não uma evidência indiscutível que se possa atribuir a uma atração de base química. (Freud, 1905, s. p.). [Grifos meus]
Foi um posicionamento ousado para a época. Além disso, não perdeu sua atualidade, inscrevendo-se claramente na mudança epistemológica de que tratei em parágrafos anteriores. Para a psicanálise, ao contrário dos instintos nos animais, no ser humano a pulsão sexual não tem objeto fixo. Neste,
[...] o objeto da pulsão é diversificado, anárquico, plural e parcial; exprime-se de várias formas: oral, anal, escopofílica, vocal, sádica, masoquista, dentre outras. Com isso, Freud divorcia a sexualidade de uma estreita relação com os órgãos sexuais, passando a considerá-la como uma função abrangente em que o prazer é sua finalidade principal, sendo a reprodução uma meta secundária. Além disso, ao postular que a sexualidade vai além dos órgãos genitais, o autor leva ‘as atividades sexuais das crianças e dos pervertidos para o mesmo âmbito que o dos adultos normais’ (Ceccarelli, 2008, p. 74)
Haveria, portanto, uma disposição bissexual original em todo ser humano e só a partir do complexo de Édipo é que se constituiria a “escolha do objeto” (hétero, homo etc.). Há, porém, um ponto limitador: o fato da psicanálise restringir a noção de diferença sexual a uma única matriz binária, as oposições entre feminino/masculino, sexo/gênero, natureza/cultura e heterossexualidade/homossexualidade. Ela não comportaria, por exemplo, a experiência da transexualidade, que só poderia ser vista por um viés patológico já que nela não haveria conformidade entre sexo biológico e gênero. Esse entendimento de parte da psicanálise também é compartilhado pela sexologia e pela psiquiatria, tratando-se de “[...] uma concepção normativa seja dos sistemas de sexo-gênero, seja do dispositivo ‘diferença sexual’. Ambas estão fundadas numa matriz binária heterossexual que se converte em sistema regulador da sexualidade e da subjetividade” (Arán, 2006, p. 50) [grifos meus].
Percebe-se então que nem tudo são flores na teorização psicanalítica em torno das homossexualidades. Nos mesmos “Três ensaios…”, o pai da psicanálise discorre em uma nota de rodapé sobre a constituição da homossexualidade (masculina), dizendo que “Nos tipos invertidos pode-se quase sempre confirmar o predomínio de constituições arcaicas e mecanismos psíquicos primitivos. A vigência da escolha narcísica de objeto e a retenção da importância erótica da zona anal figuram como suas características mais essenciais” (id.) [Grifos do autor]. Estas características indicariam uma espécie de “retardamento do desenvolvimento psíquico” do sujeito homossexual, subentendendo-se que a heterossexualidade seria matriz e referência de normalidade. Embora se afirme que Freud deixou a questão da homossexualidade em aberto, durante boa parte da história desse saber ela foi “[...] mantida no quadro clínico das perversões, fixada às fases pré-genitais, pré-edípicas, pré-simbólicas ou pré-qualquer-coisa que definiriam o sujeito homossexual como alguém que carece de algo — no mínimo normalidade e moralidade” (Vale, 2008, p. 119).
Na medicina brasileira, por sua vez, temos um exemplo representativo de medicalização da sexualidade: os “experimentos com homossexuais efeminados” realizados pelo Dr. Leonídio Ribeiro, na década de 1930. Ele montou o Laboratório de Antropologia Criminal, realizando experimentos sobre identificação civil e criminal. “Em pauta [...] estavam ‘a patologia da impressão digital, os tipos sanguíneos dos índios guaranis, os biótipos criminais afro-brasileiros e as relações entre a homossexualidade masculina e o mal-funcionamento endócrino’” (ibid., p. 121) [Grifos meus]. Com auxílio da polícia, Ribeiro reuniu 195 “homossexuais profissionais” e levou-os ao seu laboratório para então fotografá-los e medi-los. Buscava encontrar alguma relação entre sua aparência física e sua sexualidade. “O alvo [...] eram os efeminados que se prostituíam. Além dos ossos, a distribuição capilar pelo corpo, púbis e cabeça constituía-se ‘num meio excelente de identificar disfunções hormonais e, assim, a homossexualidade’ ” (id.).
Há inúmeros exemplos da medicina, da sexologia, da psicologia e da psicanálise a respeito das homossexualidades, mas creio que para as pretensões deste texto estes sejam suficientes. O que verdadeiramente interessa aqui é a questão da homofobia e o lugar dos atores do campo “psi”, de seus saberes e de suas práticas. Nesse sentido, descrevi como num primeiro momento a homofobia circunscreveu-se ao sujeito psicológico e que hoje em dia essa apreciação foi (e ainda precisa ser) estendida para outros campos. Isso porque a homofobia é um fenômeno socialmente partilhado, tributário de uma cultura falocêntrica onde a o apelo à virilidade é a norma — e a violência é a maneira usual de atender a esse apelo —, fazendo com que as referidas abordagens médicas e clínicas sejam insuficientes para dar conta dela. Ao mesmo tempo essas abordagens se prestaram (e eventualmente ainda se prestam) para normatizar a sexualidade, reiterando a matriz heterossexual e reprodutiva e, consequentemente, “psiquiatrizando” o prazer dito perverso, do qual a homossexualidade seria “o centro organizador do discurso sobre o desvio sexual” (Lanteri-Laura apud Arán, op. cit. p. 52).
Dentro desse quadro, como os integrantes do universo “psi” deveriam agir em relação à homofobia? Pelo apresentado até o momento fica evidente não haver somente uma resposta, seja pela própria diversidade do universo “psi”, seja pelo caráter plural e polissêmico do termo. Mas algumas questões podem ser levantadas, começando por uma reiteração incessante e inequívoca da despatologização das homossexualidades inaugurada a partir de sua retirada do DSM e do CID. Outro ponto seria evitar patologização da própria homofobia, ou ao menos evitar lidar com ela exclusivamente nesses termos. Não que os comportamentos homofóbicos estejam totalmente livres de dimensões patológicas, mas objetivar a homofobia meramente como doença é insistir num embate estéril onde um lado trata de atribuir ao outro o rótulo de doente por meio de discursos medicalizados. Espera-se também que os profissionais “psi” mantenham-se sempre críticos em relação as suas próprias práticas e a sua produção teórica. Quanto às práticas, convém esvaziar o lugar parametrizador que sempre lhes coube a respeito do tema, um papel que se presta tanto à re-patologização das homossexualidades quanto à (hetero)normatização. (Por isso atenção, profissionais “psi”, pensem quinze vezes antes de aceitar o papel de especialistas em programas de televisão, combinado?)
Sobre as formulações teóricas, tenho um claro porém. Ele diz respeito às pesquisas que ainda insistem em encontrar as “causas naturais” das homossexualidades, num claro retrocesso em relação à mudança epistemológica de que falei anteriormente. Ocorre que tentar legitimar as identidades homossexuais, bissexuais e transgêneros por meio de pesquisas que busquem diferenças genéticas, hormonais, na morfologia do cérebro e que tais, não garante a diminuição da discriminação nem o fim das fronteiras jurídicas que hoje existem entre as sexualidades. Arrisco a dizer que o contrário é mais provável. Insistir no caminho do essencialismo biológico é desconsiderar que há razões éticas suficientemente sólidas para se exigir o devido reconhecimento da diversidade sexual e de gênero. Além disso, se o histórico sobre a discriminação das homossexualidades se caracterizou pela hierarquia – com a masculinidade hegemônica no topo – e pela normatividade, atualmente há outro mais “moderno”: por mais surpreendente que pareça, trata-se justamente daquele que afirma a diversidade das sexualidades. Não se trata mais de afirmar a superioridade heterossexual, mas de defender e “proteger” a diversidade. Graças a esse mecanismo político, ao mesmo tempo em que as manifestações homofóbicas mais explícitas e violentas passam a ser coibidas, a afirmação da diversidade “[...] torna possível retirar gays e lésbicas do direito comum (universal) e inscrevê-los em um regime de exceção (particular)” (Borrillo, op. cit., p. 32). Essa lógica diferencialista já serviu para impedir que as mulheres votassem e que negros tivessem os mesmos direitos que brancos. É a mesma lógica que concede alguns direitos aos não heterossexuais, mas nunca a igualdade de direitos, já que as diferenças exigiriam um regime jurídico igualmente diferenciado.
A criminalização da homofobia será um importante passo para coibir os alarmantes índices de violência que mancham a imagem de um país como o Brasil, dito tolerante. Mas a repressão não basta. É preciso prevenção, o que implica em ações pedagógicas. Se a invisibilidade resulta em desconhecimento ou indiferença diante do tema, é preciso torná-lo visível, começando pelo questionamento da ordem heterossexista, essa mesma que se reafirma a cada atitude preconceituosa que infra-humaniza quem não corresponda a certas expectativas quanto ao gênero. Em outras palavras, são necessárias ações pedagógicas envolvendo famílias, escola, instituições e, porque não, toda sorte de profissionais que detêm algum poder de influência sobre a questão, caso de representantes dos poderes legislativo, executivo e judiciário, assim como também os profissionais da saúde, verdadeiras autoridades aos olhos do público leigo. Nesse sentido, ao menos em relação aos psicólogos há muito sendo feito a favor do combate à homofobia e contra a (re-)patologização das homossexualidades. A Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia, de 22 de março de 1999, por exemplo, foi a primeira regulamentação em defesa da livre orientação sexual a ser publicada entre todos os conselhos profissionais do país, estabelecendo normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual, determinando em quatro dos seus seis artigos que:
1) “os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade”; 2) “[...] deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas”; 3) “[...] não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”; 4) “[...] não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica”, além de um parágrafo único que veta a colaboração dos psicólogos “[...] com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”.
Além dessa resolução, o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP SP) lançou em maio deste ano um manifesto em apoio à Campanha Internacional Stop Trans Pathologization-2012, pela despatologização das identidades trans (travestis, transexuais e transgêneros) e a sua retirada dos catálogos de doenças (o DSM e a CID). Trata-se de uma ampliação do debate em torno das homossexualidades, já que travestis, transexuais e transgêneros seguem enquadrados na categoria psicopatológica “transtornos da identidade sexual”, além de serem as vítimas preferenciais das formas mais violentas de discriminação homofóbica, ao mesmo tempo em que são as mais invisíveis aos olhos do restante da sociedade. Esse tipo de manifesto se dirige não apenas ao público em geral, mas aos próprios psicólogos. Como profissionais do campo “psi”, precisam submeter-se a ações pedagógicas para que deixem de ratificar a heteronormatividade e repremir os que se desviam dela. Que venham mais iniciativas como essa. Nós, psicólogos, agradecemos.
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Referências
ARÁN, Márcia. A transexualidade e a gramática normativa do sistema sexo-gênero. Ágora (Rio de Janeiro) v. IX n. 1 jan/jun 2006 49-63.
BEZERRA JÚNIOR, Benilton. O desgaste de um conceito. Jornal Folha de SP, Caderno MAIS!, 3 de Dezembro de 1995.
BORRILLO, Daniel. A homofobia. In: LIONÇO, Tatiana e DINIZ, Debora (orgs). Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: LetrasLivres : EdUnB, 2009.
CARRARA, Sérgio; VIANNA, Adriana R. B. “Tá lá o corpo estendido no chão…”: a violência letal contra travestis no município do Rio de Janeiro. Physis: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 16(2):233-249, 2006.
CECCARELLI, Paulo Roberto. A invenção da homossexualidade. Revista Bagoas, n° 2, 2008, p. 71-93.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
LACERDA, Marcos, PEREIRA, Cícero; CAMINO, Leoncio. Um Estudo sobre as Formas de Preconceito contra Homossexuais na Perspectiva das Representações Sociais. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2002, 15(1), p. 165-178.
LIONÇO, Tatiana e DINIZ, Debora (orgs). Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: LetrasLivres : EdUnB, 2009.
MARQUES, Luciana Pereira. As homossexualidades na psicanálise. Trivium – Estudos Interdisciplinares, ano II, edição II, 2010, p. 467-84.
PEREIRA, Cícero .R. et al. Preconceito contra homossexuais e representações sociais da homossexualidade em seminaristas católicos e evangélicos. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Jan-Mar 2011, Vol. 27 n. 1, pp. 73-82.
VALE, Alexandre F. C. Antropologia e sexualidade: por um descentramento da enunciação científica. Revista Bagoas, n° 2, 2008, p. 115-132.
VIEIRA, Luciana Leila Fontes. As múltiplas faces da homossexualidade na obra freudiana. Revista Mal-estar e Subjetividade, Fortaleza, Vol. IX, Nº 2, p. 487-525 – jun/2009
WELZER-LANG, DANIEL. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Estudos Feministas, v. 9, nº 2(2001), p. 460-82.
Sugestões de leitura
Antes dos livros referenciados abaixo, recomendo um post do blog InQuIeTuDiNe, de Érika Pretes (advogada, militante do movimento LGBT e pesquisadora de direitos humanos) intitulado “Gay? Eu?”.
BORRILLO, Daniel. Homofobia: história e crítica de um preconceito. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.
COSTA, Jurandir Freire. A Inocência e o Vício: Ensaios Sobre o Homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992.
_______. A Face e o Verso: Estudos Sobre o Homoerotismo II. São Paulo: Escuta, 1995.
LIONÇO, Tatiana e DINIZ, Debora (orgs). Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio. Brasília: LetrasLivres : EdUnB, 2009.
Psicólogo clínico (psicoterapeuta de orientação existencial) e mestre em educação tecnológica (CEFET/RJ).
Ricardo Cabral
Quien no tenga pantalones
Quien no tenga pantalones
Por: Plácido R. Delgado
Fecha de publicación: 26/08/11
“Si a uno le dan palos de ciego, la única respuesta eficaz es dar palos de vidente.”
Contraofensiva, de Mario Orlando Hardy Hamlet Brenno Benedetti Farrugia
Un viejo profesor, discurriendo sobre asuntos maritales, contaba a sus alumnos que antes del himeneo, tomó uno de sus pantalones, lo dobló con cuidado, se lo dio a su futura esposa y le preguntó: Quiero que me digas ahora mismo quién va a llevar los pantalones en casa ¿Tú o yo? La novia respondió con suavidad: Tú, mi rey. Satisfecho con la respuesta, muy creído la tomó en sus brazos mientras ella lo recibía pensando: Entrégate chico, que quien llevará siempre las pantaletas en la casa soy yo.
Desde que el mundo es mundo, a la mujer se le ha achacado la culpa de muchas de nuestras desgracias. Ha sido paga peo universal frente al eyaculador precoz y hemos inventado un sinfín de vainas como excusa cuando, conocedoras de lo que nos conviene, no tomamos en cuenta sus consejos, así sea madre, hija, jefa, esposa, bruja, médica o cabaretera. Esto último porque más de uno no aprende que no es no y ha cogido su botellazo por payaso.
Dije alguna vez que no entiendo por qué llaman a las prostitutas “mujeres de la vida fácil” pues considero difícil ganarse la vida bajo ese designio. Muchos de esos ignominiosos de la “sociedad civil” buscan refugio en las mañas de esa antigua profesión huyendo de la cuaimatización doméstica. En terapias conyugales piden que sus esposas sean antítesis ofídica, sin confesar que quieren que emule a la innombrable dama, capeadora de su borrasca matrimonial. También dije que la prostitución abunda en la industria mediática donde resulta sumamente fácil ganarse la vida mercadeando la conciencia.
Muchos de estos opositores tienen conexiones con antros de juego y prostitución, amén de sus filiaciones con lupanares informativos. Hace unos años, un connotado dirigente cetevista a quien se le fue un paro patronal como el agua entre los dedos, quiso pasar inadvertido en un casino disfrazado de Juan Charrasqueado. Otra ¿Recuerdan dónde tenían Teodoro y Alberto Federico al Encandilao del Catatumbo antes de su huida? Después, en Lima hacía lo propio a espaldas de la hoy alcaldesa de Maracaibo. No sería extraño que Leocenis esté enconchado en un reducto sicalíptico, tratando de aplacar la parafilia que él exterioriza con un fotomontaje, sin atisbar que la contiene en sí mismo.
Sin embargo, la petulancia es un cascarón tan enorme como vacío. Llamar a un tapiz de jaula 6to. Poder solo produce risa, pues sugiere que nos ven como amarga pesadilla y que anhelan el punto final de la Quinta República. Solo hay tres escollos: El Líder Comandante, Pueblo y Fuerza Armada Bolivariana, trinidad de sus tormentos. Por si fuera poco suponen que ofenden a los hombres en armas de la Revolución, cambiando sus pantalones por faldas, cuando la mujer venezolana en realidad infunde su inigualable brillo a todos sus componentes al formar parte de ellos. De venir los marines, podrán contar con su protección.
Así las cosas, nuestras mujeres no deben sentirse ofendidas por la afrenta. Ofensivo hubiera sido que pusieran sus rostros montados en los cuerpos de un Teodoro, Enrique (cualquiera de los dos), Henry (cualquiera de los dos), Pablo y así por el estilo. Eso sí, sin trajes de cabareteras, pues con toda seguridad esas nobles damas protestarían por el uso indebido de sus atuendos de parte de tales inmorales.
coolthin@gmail.com
Por: Plácido R. Delgado
Fecha de publicación: 26/08/11
“Si a uno le dan palos de ciego, la única respuesta eficaz es dar palos de vidente.”
Contraofensiva, de Mario Orlando Hardy Hamlet Brenno Benedetti Farrugia
Un viejo profesor, discurriendo sobre asuntos maritales, contaba a sus alumnos que antes del himeneo, tomó uno de sus pantalones, lo dobló con cuidado, se lo dio a su futura esposa y le preguntó: Quiero que me digas ahora mismo quién va a llevar los pantalones en casa ¿Tú o yo? La novia respondió con suavidad: Tú, mi rey. Satisfecho con la respuesta, muy creído la tomó en sus brazos mientras ella lo recibía pensando: Entrégate chico, que quien llevará siempre las pantaletas en la casa soy yo.
Desde que el mundo es mundo, a la mujer se le ha achacado la culpa de muchas de nuestras desgracias. Ha sido paga peo universal frente al eyaculador precoz y hemos inventado un sinfín de vainas como excusa cuando, conocedoras de lo que nos conviene, no tomamos en cuenta sus consejos, así sea madre, hija, jefa, esposa, bruja, médica o cabaretera. Esto último porque más de uno no aprende que no es no y ha cogido su botellazo por payaso.
Dije alguna vez que no entiendo por qué llaman a las prostitutas “mujeres de la vida fácil” pues considero difícil ganarse la vida bajo ese designio. Muchos de esos ignominiosos de la “sociedad civil” buscan refugio en las mañas de esa antigua profesión huyendo de la cuaimatización doméstica. En terapias conyugales piden que sus esposas sean antítesis ofídica, sin confesar que quieren que emule a la innombrable dama, capeadora de su borrasca matrimonial. También dije que la prostitución abunda en la industria mediática donde resulta sumamente fácil ganarse la vida mercadeando la conciencia.
Muchos de estos opositores tienen conexiones con antros de juego y prostitución, amén de sus filiaciones con lupanares informativos. Hace unos años, un connotado dirigente cetevista a quien se le fue un paro patronal como el agua entre los dedos, quiso pasar inadvertido en un casino disfrazado de Juan Charrasqueado. Otra ¿Recuerdan dónde tenían Teodoro y Alberto Federico al Encandilao del Catatumbo antes de su huida? Después, en Lima hacía lo propio a espaldas de la hoy alcaldesa de Maracaibo. No sería extraño que Leocenis esté enconchado en un reducto sicalíptico, tratando de aplacar la parafilia que él exterioriza con un fotomontaje, sin atisbar que la contiene en sí mismo.
Sin embargo, la petulancia es un cascarón tan enorme como vacío. Llamar a un tapiz de jaula 6to. Poder solo produce risa, pues sugiere que nos ven como amarga pesadilla y que anhelan el punto final de la Quinta República. Solo hay tres escollos: El Líder Comandante, Pueblo y Fuerza Armada Bolivariana, trinidad de sus tormentos. Por si fuera poco suponen que ofenden a los hombres en armas de la Revolución, cambiando sus pantalones por faldas, cuando la mujer venezolana en realidad infunde su inigualable brillo a todos sus componentes al formar parte de ellos. De venir los marines, podrán contar con su protección.
Así las cosas, nuestras mujeres no deben sentirse ofendidas por la afrenta. Ofensivo hubiera sido que pusieran sus rostros montados en los cuerpos de un Teodoro, Enrique (cualquiera de los dos), Henry (cualquiera de los dos), Pablo y así por el estilo. Eso sí, sin trajes de cabareteras, pues con toda seguridad esas nobles damas protestarían por el uso indebido de sus atuendos de parte de tales inmorales.
coolthin@gmail.com
Depois da descoberta do Viagra, o que ainda falta para eles?
Depois da descoberta do Viagra, o que ainda falta para eles?
O urologista americano Arthur Burnett faz um balanço dos 13 anos da pílula azul e fala sobre os novos desafios da medicina
Júlia Reis, iG São Paulo | 27/08/2011 07:50
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Burnett: "Achamos uma solução que responde bem, mas temos que reconhecer outras complexidades do homem moderno"
Enquanto as mulheres enfrentam dificuldades para sentir desejo ou atingir o orgasmo, o problema sexual que mais aflige os homens é a disfunção erétil. No caso deles a solução está, em parte, dentro de um comprimido: o Viagra. O remédio completa 13 anos de mercado ao lado de outras pílulas que também prometem potência na cama. Mas a sexualidade masculina pode ser mais complexa do que se imagina, diz o urologista americano Arthur Burnett, do hospital Johns Hopkins. Ele afirma que os homens também colecionam causas psicológicas para a dificuldade de desempenho e que é preciso compreender o homem moderno além de prescrever receitas.
Em entrevista ao iG, Burnett fala sobre sexualidade e reflete a respeito dos medicamentos para ereção como uma questão mais ampla, que envolve as duas partes do casal. O profissional comenta ainda a dificuldade em tratar a falta de libido nas mulheres – o que elas farão com homens tão potentes?
iG: O Viagra está há mais de uma década no mercado. Fazendo um balanço, qual a grande contribuição do remédio para a sexualidade dos casais e qual o próximo passo que podemos esperar?
Arthur Burnett: O grande fenômeno foi poder tratar de forma efetiva o problema de disfunção com um remédio via oral. Há 20 anos não pensávamos nisso: eram tratamentos com ervas que não sabíamos se funcionavam ou cirurgias e próteses. Avançamos nos estudos para entender a ereção e, nesse caminho, outros aspetos ganharam mais atenção. Mas não curamos o problema da ereção de maneira sustentável, ainda falamos de um remédio que você tem que tomar regularmente para funcionar.
iG: Existem causas orgânicas que dificultam a ereção de um homem. Mas, assim como ocorre com as mulheres, outros fatores os perturbam psicologicamente e alteram o desempenho na cama?
Arthur Burnett: Estamos acostumados a separar as causas físicas das emocionais. Listamos condições médicas, como diabetes e problemas de coração, e colocamos ao lado as questões emocionais, como a ansiedade de performance e crises na relação amorosa. Mas a ereção é uma resposta complexa do corpo e tem ainda a interação do cérebro. Em muitos homens o problema está na mistura dos fatores, é complexo.
“ Ainda temos um longo caminho até desenvolver uma solução que funcione do mesmo jeito para as mulheres.
iG: Então podemos dizer que a sexualidade masculina é complexa como a feminina, e não baseada só no pênis como diz o senso comum?
Arthur Burnett: No senso comum usamos a imagem do computador para explicar como consertar a disfunção sexual em cada gênero: a do homem é resumida em um botão e a da mulher em muitos botões complicados... Mas a verdade está no meio do caminho. Os problemas masculinos têm outras variáveis como ansiedade e orientação sexual. Alguns pacientes querem a prescrição do remédio para conseguir a ereção e também desejam tratar essas questões, então eu os encaminho para psicoterapeutas.
Devemos mudar nossa forma de pensar. Não dá para dizer ao paciente ‘olha, você já tem uma ereção, já tem o Viagra, pode ir embora do consultório’. Achamos uma solução que responde bem, mas temos que reconhecer outras complexidades do homem moderno. Além disso, as pessoas podem responder melhor ao remédio se melhorarem o estilo de vida.
Ainda não existe solução semelhante ao Viagra para as mulheres
iG: Pensando na realidade dos casais, o Viagra melhorou muito a situação para os homens. Mas como o remédio mudou o sexo para as mulheres? Agora elas têm parceiros que podem estar sempre potentes, mas isso não garante que estejam satisfeitas sexualmente.
Arthur Burnett: Tivemos que reconhecer que a atividade sexual trata de duas pessoas funcionando juntas, e isso chamou a atenção para a questão feminina também. Hoje temos mais compreensão que a sexualidade é uma questão do casal. E uma falta de lubrificação da mulher, por exemplo, mostra que o problema está na dinâmica dos dois.
iG: O Viagra deve ter estimulado homens com problemas de ereção a procurar ajuda médica. Mas mesmo assim será que eles ainda demoram muito para assumir que o problema está em si? Primeiro culpam o casamento, a rotina, o estresse...
Arthur Burnett: Sim. Com o remédio existe uma forma de lidar com o problema de forma efetiva. Antes o médico não gostava nem de entrar na discussão porque não tinha uma resposta para a condição do paciente. Agora ele tem. Mas é muito possível que homens ainda demorem a assumir. Eles são teimosos e tendem a culpar o entorno, é parte da natureza masculina.
iG: Homens ainda têm vergonha de contar para a parceira que tomam remédio para garantir a ereção?
Arthur Burnett: Sim, muitos tomam escondido. É difícil para eles. Por outro lado alguns querem tomar para se exibir, baseados no mito que ficarão por horas com uma ereção. Nem sempre é o casal que vem ao consultório.
iG: Há alguns anos é estudada uma versão feminina do Viagra, mas nada foi aprovado. Porque as soluções para as mulheres são mais difíceis?
Arthur Burnett: Ainda temos um longo caminho até desenvolver uma solução que funcione do mesmo jeito para as mulheres. Nelas o problema dominante é na libido e isso envolve hormônios e outros aspectos. Elas podem até ter mais lubrificação com remédio, mas isso não resolve a libido. Urologistas e ginecologistas nem querem tratar de assuntos da sexualidade feminina porque não têm muito que oferecer. Esse é o desafio.
O urologista americano Arthur Burnett faz um balanço dos 13 anos da pílula azul e fala sobre os novos desafios da medicina
Júlia Reis, iG São Paulo | 27/08/2011 07:50
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Burnett: "Achamos uma solução que responde bem, mas temos que reconhecer outras complexidades do homem moderno"
Enquanto as mulheres enfrentam dificuldades para sentir desejo ou atingir o orgasmo, o problema sexual que mais aflige os homens é a disfunção erétil. No caso deles a solução está, em parte, dentro de um comprimido: o Viagra. O remédio completa 13 anos de mercado ao lado de outras pílulas que também prometem potência na cama. Mas a sexualidade masculina pode ser mais complexa do que se imagina, diz o urologista americano Arthur Burnett, do hospital Johns Hopkins. Ele afirma que os homens também colecionam causas psicológicas para a dificuldade de desempenho e que é preciso compreender o homem moderno além de prescrever receitas.
Em entrevista ao iG, Burnett fala sobre sexualidade e reflete a respeito dos medicamentos para ereção como uma questão mais ampla, que envolve as duas partes do casal. O profissional comenta ainda a dificuldade em tratar a falta de libido nas mulheres – o que elas farão com homens tão potentes?
iG: O Viagra está há mais de uma década no mercado. Fazendo um balanço, qual a grande contribuição do remédio para a sexualidade dos casais e qual o próximo passo que podemos esperar?
Arthur Burnett: O grande fenômeno foi poder tratar de forma efetiva o problema de disfunção com um remédio via oral. Há 20 anos não pensávamos nisso: eram tratamentos com ervas que não sabíamos se funcionavam ou cirurgias e próteses. Avançamos nos estudos para entender a ereção e, nesse caminho, outros aspetos ganharam mais atenção. Mas não curamos o problema da ereção de maneira sustentável, ainda falamos de um remédio que você tem que tomar regularmente para funcionar.
iG: Existem causas orgânicas que dificultam a ereção de um homem. Mas, assim como ocorre com as mulheres, outros fatores os perturbam psicologicamente e alteram o desempenho na cama?
Arthur Burnett: Estamos acostumados a separar as causas físicas das emocionais. Listamos condições médicas, como diabetes e problemas de coração, e colocamos ao lado as questões emocionais, como a ansiedade de performance e crises na relação amorosa. Mas a ereção é uma resposta complexa do corpo e tem ainda a interação do cérebro. Em muitos homens o problema está na mistura dos fatores, é complexo.
“ Ainda temos um longo caminho até desenvolver uma solução que funcione do mesmo jeito para as mulheres.
iG: Então podemos dizer que a sexualidade masculina é complexa como a feminina, e não baseada só no pênis como diz o senso comum?
Arthur Burnett: No senso comum usamos a imagem do computador para explicar como consertar a disfunção sexual em cada gênero: a do homem é resumida em um botão e a da mulher em muitos botões complicados... Mas a verdade está no meio do caminho. Os problemas masculinos têm outras variáveis como ansiedade e orientação sexual. Alguns pacientes querem a prescrição do remédio para conseguir a ereção e também desejam tratar essas questões, então eu os encaminho para psicoterapeutas.
Devemos mudar nossa forma de pensar. Não dá para dizer ao paciente ‘olha, você já tem uma ereção, já tem o Viagra, pode ir embora do consultório’. Achamos uma solução que responde bem, mas temos que reconhecer outras complexidades do homem moderno. Além disso, as pessoas podem responder melhor ao remédio se melhorarem o estilo de vida.
Ainda não existe solução semelhante ao Viagra para as mulheres
iG: Pensando na realidade dos casais, o Viagra melhorou muito a situação para os homens. Mas como o remédio mudou o sexo para as mulheres? Agora elas têm parceiros que podem estar sempre potentes, mas isso não garante que estejam satisfeitas sexualmente.
Arthur Burnett: Tivemos que reconhecer que a atividade sexual trata de duas pessoas funcionando juntas, e isso chamou a atenção para a questão feminina também. Hoje temos mais compreensão que a sexualidade é uma questão do casal. E uma falta de lubrificação da mulher, por exemplo, mostra que o problema está na dinâmica dos dois.
iG: O Viagra deve ter estimulado homens com problemas de ereção a procurar ajuda médica. Mas mesmo assim será que eles ainda demoram muito para assumir que o problema está em si? Primeiro culpam o casamento, a rotina, o estresse...
Arthur Burnett: Sim. Com o remédio existe uma forma de lidar com o problema de forma efetiva. Antes o médico não gostava nem de entrar na discussão porque não tinha uma resposta para a condição do paciente. Agora ele tem. Mas é muito possível que homens ainda demorem a assumir. Eles são teimosos e tendem a culpar o entorno, é parte da natureza masculina.
iG: Homens ainda têm vergonha de contar para a parceira que tomam remédio para garantir a ereção?
Arthur Burnett: Sim, muitos tomam escondido. É difícil para eles. Por outro lado alguns querem tomar para se exibir, baseados no mito que ficarão por horas com uma ereção. Nem sempre é o casal que vem ao consultório.
iG: Há alguns anos é estudada uma versão feminina do Viagra, mas nada foi aprovado. Porque as soluções para as mulheres são mais difíceis?
Arthur Burnett: Ainda temos um longo caminho até desenvolver uma solução que funcione do mesmo jeito para as mulheres. Nelas o problema dominante é na libido e isso envolve hormônios e outros aspectos. Elas podem até ter mais lubrificação com remédio, mas isso não resolve a libido. Urologistas e ginecologistas nem querem tratar de assuntos da sexualidade feminina porque não têm muito que oferecer. Esse é o desafio.
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