sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vadia, eu?


Mulheres ofendidas contam o que acontece quando os homens pensam que a roupa é um convite
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18.07.2011 | Texto por Nana Tucci Fotos Victor Affaro
Victor Affaro
Victor Affaro
Viviane Favery, 25 anos, publicitária. Adora minissaias e calças justas, mas não usa com frequência porque não gosta de ser encarada nas ruas. “Acho invasivo aquele olhar de cão faminto que os homens dirigem a você”
Quando trabalhou como promotora num evento em São Paulo, a jornalista Simone Grazielle, 30 anos, chegou a ouvir mais de uma vez, de mais de um homem: “Quanto você cobra?”. Vestia short e bota e tinha caprichado na maquiagem. Ela, no entanto, não ficou chocada – como usa frequentemente roupa curta e decote, inclusive na produtora onde trabalha, está acostumada a esse tipo de abordagem. “Se a mulher é muito exuberante, os homens acham que ela é puta”, resume Simone.

Assim como ela, outras mulheres que não se vestem de maneira sensual com o intuito de atrair a atenção da ala masculina – e sim porque gostam – têm de escutar cantadas desrespeitosas e acabam sendo rotuladas, entre outros insultos, de “vaca” e “vadia”. Em casos extremos, são agredidas fisicamente e vítimas de abuso sexual . A justificativa para muitos dos casos de violência física ou moral continua sendo a de que a mulher não deveria sair por aí exibindo o corpo. Ou seja: a culpa é dela.

E esse assunto, que parece bobo (mas não é) acaba de entrar na ordem do dia. Mulheres do mundo inteiro se rebelaram contra as agressões morais e físicas e organizaram a Marcha das Vadias (ou Slut Walk) em dezenas de cidades, como São Paulo, Nova York e Londres. Nessas passeatas, saíram às ruas com roupas provocantes e carregando cartazes com frases como: “Eu me visto para mim, não para você”.

Mas, enquanto as coisas não mudam, a solução encontrada por Simone para se esquivar das perguntas constrangedoras foi investir em respostas bem-humoradas, como “o estilo Bruna Surfistinha está na moda”. Em outra ocasião, estava na sala VIP de um aeroporto e ouviu de duas senhoras que era inadmissível “uma dama de companhia ocupar o mesmo espaço que elas”. Simone explicou educadamente que se sentia bonita daquele jeito e alfinetou: “Se fosse uma dama de companhia não precisaria trabalhar tanto como jornalista”.

Cão faminto


Nem todas conseguem reagir como Simone. A publicitária Viviane Favery, 25 anos, evita usar minissaia porque não gosta de ser abordada o tempo todo. “Acho invasivo aquele olhar de cão faminto que os homens dirigem a você. Não sou uma amostra grátis”, discursa. Ela diz que usaria mais calças justas e minissaias se não tivesse de lidar exaustivamente com olhares gulosos, mas garante não ligar para julgamentos morais. “O olhar é problema meu porque me traz desconforto imediato. Mas o julgamento, bom, é problema de quem julga.”

Foi quando usava uma saia que a produtora cultural Paula Chang, 26 anos, sofreu um assédio sexual e uma agressão física no metrô de Paris. Saindo de um bar, ela desceu até uma estação com amigos e cada um seguiu seu caminho. Nessa hora, um homem se aproximou e enfiou a mão por dentro de sua saia. Ela o empurrou e ele reagiu com um soco. No dia seguinte, Paula deu queixa na polícia parisiense e meses depois foi chamada para prestar depoimento.
Chegou a assistir ao vídeo que registrava o momento do assédio e olhou fotos do suposto agressor, mas não o reconheceu. “Fiquei um bom tempo traumatizada, com medo de sair às ruas. Aos pouquinhos fui me recuperando”, conta.

Ela lembra que, quando narrava a história a conhecidos, justificava: “Estava de casaco de inverno e a saia nem era muito curta”. Até que uma amiga a fez perceber que aquela era uma maneira de ela se isentar da culpa da agressão: “Mesmo que estivesse com uma saia curtíssima ninguém tem o direito de assediá-la”.

Vai sair assim?
Esse sentimento de culpa existe porque durante muito tempo o estupro era “justificável” se a mulher usasse roupas que atiçassem a libido masculina. “Até que o movimento feminista mostrou que crianças, freiras de hábitos e mulheres idosas com roupas convencionais também eram estupradas”, explica a socióloga Eva Blay, integrante do Nemge (Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero), da USP.

Foi a declaração de um policial numa universidade de Toronto, no Canadá, seguindo esta linha de raciocínio, que causou revolta e inspirou a criação da Marcha das Vadias, na mesma cidade, em abril passado. Ele afirmou que as estudantes deveriam evitar “se vestir como vagabundas” se não quisessem se tornar alvo de estupros.

No Brasil, o movimento passou por capitais como Brasília e Recife. E insurgiu contra personalidades como Rafinha Bastos, do programa CQC, que afirmou à revista Rolling Stone: “Toda mulher que vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho; tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus”. Também foi lembrado na marcha o caso Geisy Arruda – a garota que foi alvo de agressões verbais na Uniban, em 2009, por comparecer às aulas usando um vestido curto e justo. Acabou sendo expulsa da instituição por “desrespeitar princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade”.

As frases expostas em cartazes na Marcha das Vadias, em São Paulo, inspiraram um texto do colunista da Folha de S.Paulo Marcelo Coelho, que se mostrou especialmente tocado por uma delas: Acredite ou não, minha saia curta não tem NADA a ver com você. A respeito disso, refletiu: “‘Se elas se vestem assim, como é que não querem que eu me interesse?’. Mas a ficha, ao cair, deu sua resposta a essa questão. Há muitas razões, fiquei pensando, para uma mulher usar uma minissaia espetacular. (…) Acontece que o ‘machão’, ou, arriscome a dizer, a maioria dos homens, sentese pessoalmente interpelado pela minissaia da mulher belíssima. ‘É comigo’, pensa ele. ‘Afinal, não sou o centro do mundo?’”.

Lola Aronovich, 43 anos, autora de um dos blogs feministas mais conhecidos do país (escrevalolaescreva.blogspot.com), foi à marcha em Belo Horizonte e opina: “A gente ouve isto toda hora: ‘É a mulher que tem que aprender a não ser estuprada, não o homem que tem que aprender a não estuprar’. Quando alguém fala em estupro, a primeira coisa que se pergunta é: ‘Mas o que ela estava vestindo, onde ela estava, que horas eram?’”.

A jornalista Simone Grazielle afirma já ter ouvido diversas vezes, da boca de mulheres: “Vai sair assim? Depois é estuprada e reclama”. Ela se revolta: “Quem disse que eu estar andando ‘pelada’ justifica o estupro, a invasão, o desrespeito?”. E diz mais: “Acho que são aquelas pessoas que têm vontade de usar, mas não usam. Seja por falta de coragem, por não combinar com seu estilo ou por não saber como reagir aos comentários”. Segundo a publicitária Viviane Favery, os olhares preconceituosos das mulheres podem ser tão ou mais incômodos do que os dos homens.

Ainda hoje muitas mulheres crescem em famílias “tradicionais” (e tradição, aqui, é no sentido careta mesmo) em que a mãe recomenda à filha que não use roupas curtas ou decotadas se não quiser ser cobiçada.

Não é o caso da família da fotógrafa Nathalie Gingold, 27 anos, porém ela relaciona o fato de nunca ter contado aos pais sobre o assédio que sofreu aos 12 anos à culpa que carregou durante a infância. A caminho da padaria, à luz do dia, um homem parou Nathalie dizendo obscenidades e se masturbando. “Achei que a culpa era minha e decidi usar, a partir de então, somente roupas largas que escondessem meu corpo. Tinha pavor que mexessem comigo de novo. Hoje percebo como foi triste esse episódio, porque durante anos não pude mostrar minha feminilidade com medo de olhares, gestos e palavrões”, relata.

“Piranha”

É na infância que a mulher geralmente tem o primeiro contato com agressões verbais, em rótulos dados por colegas da escola, como “piranha”. E não só por consequência das roupas. Mas também por beijar mais de um menino da turma – porém ao se negar a ficar com algum é provável que também seja xingada. Caso não vivencie situações como essas quando criança, durante a adolescência essas questões se renovam e ganham força. “Será que se eu transar no primeiro encontro ele vai me achar uma ‘vadia’? E se eu vestir uma calcinha fio dental, ele vai pensar que sou dada?” A impressão é de que a sexualidade da mulher não a pertence até o momento em que ela decide, finalmente, se apropriar dela.

Não é fácil. Se o ambiente continua predominantemente machista, o jeito é se preparar para as inevitáveis reações machistas. E, enquanto elas estiverem por aí, não há o que fazer a não ser lidar com elas. A psicóloga Luciana Comparato dá algumas pistas: “Se a mulher expõe algo que culturalmente
não é exposto nas ruas, se ela tem prazer em usar um decote maior ou uma minissaia que mostre o que as pessoas não estão acostumadas a ver, ela tem que estar pronta para receber tanto elogios como ofensas”.

E é o que Simone Grazielle faz na prática. Ela respondia o seguinte aos homens que a abordavam no tal evento, supondo que fazia programas: “Terei de recusar seu convite porque só estou aqui para conseguir pagar minha faculdade. Minha roupa é curta, mas isso é só um detalhe. Isso não diz o que eu sou, quero e tenho, não expressa meus valores nem mede a minha inteligência”.

http://revistatpm.uol.com.br/revista/111/reportagens/vadia-eu.html

Meu namorado já teve namorado


Como você reagiria se soubesse que seu namorado já fez sexo com outro homem?
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13.06.2011 | Texto por Ariane Abdallah e Amanda Nogueira
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Como reagiria se soubesse que seu namorado já fez sexo com outro homem? Tpm rompe o preconceito e apresenta mulheres que descobriram outras formas de lidar com insegurança e liberdade

Era uma madrugada como outra qualquer. Carla* e Ronaldo, na época com 20 e 27 anos, voltavam para casa depois de uma festa. Jogavam conversa fora quando ela perguntou, rindo: “Ah, vai dizer que você nunca fez nada com outro cara?”. Ronaldo fez silêncio. O clima pesou. “Achei que tinha sido brincadeira de moleque, não imaginava nada sério”, esclarece a revisora de texto, hoje com 24 anos e nove de namoro. Ele, então, contou que havia namorado um homem por um ano – por sinal, um amigo com quem o casal convivia. “Fiquei chateada por ele não ter contado antes”, lembra Carla. Desde então, passou a sentir ciúme do tal amigo, que está casado, pela segunda vez, com uma mulher e é pai de quatro filhos.
Casos como o de Carla são mais comuns do que se imagina, mas em geral não são assumidos. Para descobrir histórias parecidas, a equipe da Tpm mandou e-mail para uma centena de colaboradores. Veio uma única resposta. O post no Facebook rendeu uma piadinha e o assunto morreu. Das pessoas que toparam falar, a condição era sigilo do nome: “Ninguém quer falar disso”.
Tá na moda?
Já a publicitária Cecília, 21 anos, não teve escolha. Em 2010, namorou por cinco meses Diego, que contava seu passado homossexual até em mesa de bar. Ela não gostava e às vezes saía de perto para não ouvir. “Ele falava que eu tinha que me acostumar”, conta. Os dois se conheceram quando ela tinha 13 anos, num curso de teatro. Passaram anos sem se ver, até que se cruzaram na faculdade, e ela levou um susto. “Ele estava de cabelo comprido, roupas justas, falava gesticulando muito... Dava para perceber que era gay.” Em uma conversa rápida, o menino comentou que tinha um caso com um professor. Não se viram mais por dois anos, até que, num reencontro do teatro, Cecília levou outro susto. Agora, ele se comportava de maneira discreta e se dizia heterossexual.
Ficaram próximos, começaram a se ver, “ele virou meu amigo gay”. Até que se declarou apaixonado por Cecília. A cabeça dela deu um nó. “Foi confuso pra mim, mas resolvi levar o relacionamento adiante. O pior eram os comentários. Meninos que nem me conheciam diziam para eu largar meu namorado porque ele era veado”, conta.
“O diferente numa relação como essa é se acostumar com um cara que não desempenha sempre o papel do macho” (Lucia, 24 anos)
Cecília faz parte de uma geração que aparentemente tem maior aceitação das relações homo e bissexuais. “Quando me formei no colégio, mais da metade dos rapazes da minha sala era gay. Ficar com alguém do mesmo sexo pode até gerar status”, opina ela, que diz nunca ter beijado outra menina. O psicanalista Nelson da Silva Junior, da USP, ouve de seus pacientes histórias que vão ao encontro do que Cecília diz: “Para alguns grupos de jovens isso hoje é um valor. Na sociedade do consumo, do prazer imediato, o que vale é ter o maior número de experiências possível”. Há alguns anos, o psiquiatra Luiz Cuschnir, coordenador do Instituto de Psiquiatria da USP e do Centro de Estudos da Identidade do Homem e da Mulher, foi procurado por um conceituado colégio paulistano que via esse comportamento entre seus alunos. Para ele, o que está acontecendo é diminuição do preconceito e aumento da liberdade. “Essas experiências abrem caminho para que sejam repetidas na fase adulta”, observa.
Amizade colorida
Existem ainda mulheres, a maioria na faixa dos 30 anos, que acabam se aproximando de um amigo gay depois de relacionamentos heterossexuais frustrados. Às vezes, a afinidade é tanta que a amizade vira namoro e, mesmo ela sabendo que o cara é gay, topa uma relação em que prevalece o carinho, o afeto, a vontade de construir uma família. O sexo fica em segundo plano, e é possível que ela aceite que o homem continue a transar com outros parceiros. “Para a mulher, esse homem representa a figura afetiva, não ameaçadora, porque ela sabe que não vai ser traída com outra. Eles são homossexuais, mas ‘hétero afetivos’. Se a mulher estiver disposta a bancar, podem até ter filhos”, afirma o psiquiatra Alexandre Saadeh, do Hospital das Clínicas (SP), que atende pacientes de ambos os sexos nessa situação.
Já para as mulheres ouvidas pela reportagem da Tpm o sexo é, sim, fundamental na relação. Cecília garante que o ex-namorado tinha pegada de homem na cama. “O sexo não era nada delicado. Ali, na hora, nunca veio na minha cabeça uma cena dele tendo relação com outro cara, até porque, se pensasse nisso, não sei se conseguiria continuar.”
“O sexo não era nada delicado. Ali, na hora, nunca veio na minha cabeça uma cena dele tendo relação com outro cara, até porque, se pensasse nisso, não sei se conseguiria continuar” (Cecília, 21 anos)
Porém, em outros momentos, Cecília sentia como se estivesse com uma amiga. Ele falava sobre moda, reparava em suas unhas e entendia até suas crises de TPM. “Isso me deixava com um pé atrás”. Além disso, ele cuidava dos mínimos detalhes nos momentos que estavam juntos. Por exemplo, na primeira noite em que transaram, na casa dele, encontrou as luzes vermelhas no quarto e o vinho já na taça. Hoje, Cecília acha que toda essa atenção podia ser um meio de ele afirmar sua masculinidade – e confessa o medo que tinha de ser trocada por um homem.  “Se acontecesse, sentiria que não fui mulher suficiente para fazê-lo mudar de ideia.”
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Sem limites
A instrutora de ginástica Julia, 28 anos, namorou por um ano um bissexual e se irritava quando ele imitava o estereótipo do gay. “Durante uma briga, cheguei a chamá-lo de boiola”, conta ela, que não se imagina em outro namoro assim. Carla, a revisora de texto que namora há nove anos, passou por situação parecida. No início, se incomodava com os trejeitos de Ronaldo, que às vezes falava alto e gesticulava muito. “Quando escapava alguma coisa, me assustava, mas agora não me incomodo mais”, diz. Já a enfermeira Marcela, 37 anos, assegura que o marido, bissexual, “não dá pinta nenhuma. Tem traços turcos, barba, cara de homem”, descreve.
O fato é que saber que o parceiro já teve relação homossexual é mais um elemento para a mulher se sentir insegura. “Ela talvez pense: ‘O que ele espera de mim? Que papel quer que eu faça?’”, pondera o psicanalista Nelson da Silva Junior. “O diferente numa relação como essa é se acostumar com um cara que não desempenha sempre o papel do macho”, diz a advogada Lucia. Aos 24 anos, namora há seis meses um cara que se considera “hétero flexível”. Há alguns meses, a pedido dele, ela vem considerando a possibilidade de usar uma daquelas cintas com pênis de silicone para fazer o papel do homem. “Achei estranho, mas ele pediu para eu pensar. Por que não?”
Saber que o parceiro teve relação homossexual é mais um elemento para a mulher se sentir insegura. “Ela talvez pense: ‘O que ele espera de mim? Que papel quer que eu faça?’” (Nelson da Silva Junior, psicanalista)
Já os hábitos do casal Marcela e Jairo vão muito além. Quando se conheceram, ele já transava com homens, principalmente travestis. Ela topou a brincadeira pela primeira vez numa noite em que saíram com um casal de amigos. Desde então, faz parte da vida deles transar com pessoas já conhecidas ou que encontram na internet. Vale tudo: homem com homem, mulher com mulher, desde que os dois estejam no mesmo ambiente. E ela garante que não é tabu ver o marido sendo penetrado. “Ele é liberado no sexo e isso me seduziu, fazemos o que temos vontade.”
Marcela acredita que todo mundo é potencialmente bissexual, mas é reprimido. “Acho que a gente aprende a ser heterossexual. As pessoas são doutrinadas desde criança a seguir um caminho só”, opina. Sua teoria tem a ver com o que acredita a psicanálise, que leva em consideração a história da humanidade para explicar a opção sexual. O psicanalista Nelson da Silva Junior esclarece: “Para Freud, a sexualidade está relacionada com experiências da infância e da adolescência, é cultural, e não tem nada a ver com degeneração moral ou física”.
Seja como for, relaxa e goza.
*os nomes dos entrevistados foram trocados para protegersuas identidades reais

http://revistatpm.uol.com.br/revista/110/reportagens/meu-namorado-ja-teve-namorado.html

Não grita comigo!


Você acha normal seu namorado gritar com você? Então por que deixa?
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13.05.2011 | Texto por Nina Lemos Fotos Rodrigo Sacramento

Um tom de voz mais alto, uma discussão sem motivo ou mesmo a indiferença do seu namorado podem parecer uma simples alteração de humor. Tem certeza? Tpm mostra que a violência numa relação começa por aí. E por que muitas mulheres demoram a dizer: Não grite comigo!


Rodrigo Sacramento

A cantora Nana Rizinni tinha 20 anos quando decidiu passar o fim de semana na casa de praia do namorado de dois anos (nada mais corriqueiro para um relacionamento longo e estável). Ao entrar, ela “não fechou a porta da casa direito” (nada mais normal para uma garota distraída). Foi o suficiente para que seu namorado começasse a gritar: “Você não faz nada certo! Como assim não fechou a porta? Você não tem respeito por nada, nem pelo teto que os meus pais construíram!”. Passada a tempestade verbal, ele colocou a menina para fora de casa. Absurdo. Mas normal para um relacionamento marcado pela agressividade do rapaz.
“Fiquei muito machucada. Fui pra casa de uma prima e passei o feriado chorando. Ali vi que realmente tinha acabado”, conta a menina. Antes disso, claro, Nana aguentou “explosões que vinham do nada” pelo tempo que o namoro durou. “Ele mudava de cara, ficava com os olhos vermelhos e era sempre por causa de alguma bobagem. Eu era muito nova e achava que esse era o jeito dele”, lembra.
“Você trata muito mal sua menina”
Você não deve estranhar ao perceber que uma garota descolada como essa, que lança disco solo mês que vem, canta, compõe e toca bateria, tenha vivido isso. Afinal, que mulher já não passou por situação parecida? E você, nunca teve um namorado que tinha o hábito de dar uns gritos, chamar você de burra, socar o capô do carro? OK. Vai ver o seu era de outro tipo: ele não berrava, mas te humilhava, te ignorava, te achava um lixo. E deixava isso claro. Até que você começava a acreditar.
O abuso moral em relacionamentos amorosos é comum (demais). “Nunca pensei que isso podia ser uma coisa tão corriqueira”, diz o cineasta João Jardim, diretor do filme Amor?. O documentário, em cartaz nos cinemas, mostra histórias reais de mulheres que sofreram abusos físicos e psicológicos (e de homens que abusaram), interpretadas por atrizes como Lília Cabral e Julia Lemmertz. “As histórias contadas no filme têm sempre violência física. Mas são tão loucas emocionalmente que isso chega a ser quase um detalhe”, afirma João. Em suas pesquisas, o diretor chamou a atenção para o medo que essas mulheres sentem. “Elas vivem um tipo de relacionamento em que se sentem ameaçadas, mas também não conseguem sair dele”, conta o diretor. A terapeuta familiar Tai Castilho, que atende casais há mais de 20 anos, diagnostica: “Um relacionamento em que você sente que pisa em ovos o tempo inteiro é um relacionamento de risco”.
“A forma mais cruel de violência que vejo os homens praticarem contra as mulheres é a ausência. É não prestar atenção nela", Diana Corso, psicanalista
“Você olha para ela com desprezo”
A atriz Silvia Lourenço, 30 anos, já viveu isso. Não só no filme Amor?, em que interpreta uma garota que vive um relacionamento homossexual para lá de conturbado, como também na vida real. Ela conta que a relação com o primeiro namorado era completamente neurótica. “Ele morria de ciúmes. Era só eu chegar 5 minutos atrasada para ele inventar a maior história. E quando a gente bebia acabava brigando pra valer.” Silvia ficou mais de um ano nessa. E admite sua parcela de lenha na fogueira. “Acho que eu queria testar os meus limites. Então, se ele falava mais alto, falava também. Era uma coisa de 
desafiar mesmo. Acho que eu queria, de certa forma, correr perigo”, analisa.
Até que um dia o perigo ficou real. “Tínhamos bebido, brigamos, e ele subiu a Cardeal Arcoverde [rua movimentada de São Paulo] na contramão e aos berros. “Vi que eu podia morrer. Caí fora.” Hoje, adulta, Silvia consegue enxergar o que quer em um namoro. “Depois de fazer o filme passei a reparar muito nisso. A violência pode ser silenciosa. O cara tratar você como uma burra já é uma forma de violência.”
“A violência pode ser silenciosa. O cara tratar você como uma burra já é uma forma de violência”, Silvia Lourenço, atriz
A psicanalista e colunista do Zero Hora Diana Corso faz coro. “A forma mais cruel de violência que vejo os homens praticarem contra as mulheres é a ausência. É não prestar atenção nela”, defende. Em um dos depoimentos do filme Amor?, uma das agredidas reclama justamente disso: do cara que não repara nos quilos que ela perdeu, na mudança de cabelo, em nada. Calma. Se você tem um namorado que não repara quando você cortou o cabelo, não quer dizer que você esteja em um relacionamento doentio. Mas só que você namora um cara, huuum, normal. Estamos falando aqui de homens que elogiam outras mulheres na sua frente, chamam você de ignorante e, em alguns casos, te olham com cara de nojo.
A artista plástica carioca Maria (nome fictício), 35 anos, sabe muito bem o que é isso. Ano passado terminou um casamento de dois anos com um homem que não ligava muito pra ela. “Morávamos no Rio e, no fim do ano, íamos para Recife, de onde ele era. Uma vez ele viajou antes e fui encontrá-lo. Quando cheguei, já fui recebida com frieza. Sem sexo. Na temporada que se seguiu, ele fez tudo que podia para me deixar por baixo. Me ignorava e fazia questão de falar de outras mulheres ao meu redor, de como eram lindas. Hoje, olhando para trás, acho tudo uma loucura”, diz Maria, sem compreender exatamente como prolongou tanto o casamento.
Na época, infelizmente, ela não conseguiu pular fora. Difícil entender por quê. Quais são os motivos que fazem a gente continuar com alguém sabendo que a pessoa nos faz mal? Medo de ficar sozinha e de se separar são os motivos mais óbvios. Mas, de acordo com Tai Castilho, motivos, digamos, mais freudianos também fazem a gente “não conseguir se afastar”. “Nossos relacionamentos imitam outros que tivemos no passado. Se alguém teve uma mãe que foi maltratada pelo pai, por exemplo, pode copiar esse modelo.” Saber o que rolou lá atrás, quando ainda éramos crianças, bem, isso só com terapia mesmo.
“Ele me ignorava e fazia questão de falar de outras mulheres ao meu redor, de como eram lindas”, Maria, artista plástica
Agora, os motivos que fazem um sujeito agredir uma mulher dessa maneira podem até passar por transtornos psiquiátricos. Mas Tai dá outra pista. “Muitas vezes o que nos irrita no outro são coisas que nós mesmos temos. Ou invejamos”, explica. Traduzindo: seu namorado vive reclamando que você fala demais quando, na verdade, quem fala muito é ele. E se o cara também costuma falar mal da sua família isso acontece porque no fundo ele bem que gostaria de ter uma relação familiar tão bacana quanto a sua.

Um dia ela vai sair de cena”
Como enxergar que você está em uma roubada e que precisa sair dela? “Se você começa a perceber que está sendo maltratada, que está sendo humilhada, a questionar se aquilo é o que você quer para você, já é um sinal”, avisa Tai. E ela complementa: “Você tem que tomar a responsabilidade do que está acontecendo para você, não esperar que o outro mude. Se ele não te trata bem, você vai embora porque quem não quer ser tratada assim é você”. É o famoso “impor os seus limites”. Fácil não é. Mas a gente sempre consegue – e depois se sente muito bem, obrigada.

Rodrigo Sacramento



Não somos santas

Ao contrário do que pensam muitas mulheres, não são só elas que sofrem com parceiros agressivos. os homens também são vítimas do comportamento violento das namoradas

No fim de um namoro-casamento que durou ao todo dez anos, o designer Renato (nome fictício), 34 anos, foi obrigado a lidar com uma mordida. Séria. “Ela voou em cima de mim, me dando tapas e depois me mordeu. Tive que dar um jeito de apartá-la de mim sem machucá-la”, diz o sujeito, que se sentiu agredido e humilhado “até por não poder bater”. “Tem mulher que sabe quando o homem é gente boa e não vai bater nela de jeito nenhum. E se aproveita disso para pisotear. Elas te deixam em situações em que você chega a se sentir mal por ser homem e mais forte, mas não reage por princípio. ”
O desabafo faz sentido. Você já deve ter feito isso alguma vez na vida. Ou será que não? “As mulheres às vezes provocam o homem para que ele mostre o pior lado da sua masculinidade, como se ele fosse um incrível Hulk. Algumas querem ver esse monstro. Fazem isso para testar mesmo”, diz a psicanalista Diana Corso. O assédio feminino, segundo ela, também costuma ser sutil. “A mulher vai soltando farpas, falando coisas que machucam até que o cara se sinta muito mal no relacionamento.” De acordo com a terapeuta Tai Castilho, é comum a pessoa se utilizar de uma confissão que o outro fez, ou de um momento de fraqueza, e usar isso contra na hora de uma briga.
Nesse relacionamento que teve, entre outras coisas, mordidas (e não de amor) Renato passou a se sentir completamente “incapacitado”. “Ela dizia que eu não sabia fazer nada. Se tentava lavar um prato, falava que eu estava fazendo do jeito errado.” Sim, nesse ponto não somos muito diferentes dos homens que reclamam o tempo todo da mulher que “não serve para nada”.
“Muitos problemas hoje em dia acontecem quando a mulher, por exemplo, ganha mais do que o homem. Os papéis de gênero não estão ainda totalmente definidos na sociedade. O cara começa a se sentir um fraco e a mulher se aproveita disso para exibir poder”, afirma Tai. Não, também não somos santas – temos nossa parcela de loucura. E você, será que está dando uma de louca?

http://revistatpm.uol.com.br/revista/109/reportagens/nao-grita-comigo.html