sexta-feira, 20 de maio de 2011

Conversa, toques, óleos... Por uma vida sexual ativa

Sexo em pauta
Conversa, toques, óleos... Por uma vida sexual ativa

Por Leandro Vieira Foto Divulgação

Na minha cadeira ou na tua?. A frase é exatamente um trocadilho com a famosa proposta "na minha casa ou na sua?", e também o nome do livro da publicitária Juliana Carvalho, Editora Terceiro Nome. A autora venceu o preconceito ao esboçar em páginas um pouco de sua experiência sexual. "Falar da vida se xual de pessoas com deficiência ainda é tabu em muitos sentidos. É difícil, por exemplo, conseguir informações mesmo com profissionais de saúde em geral. Poucos sabem o básico sobre sexualidade de lesados medulares, por exemplo. E, quando conhecem, não sabem como abordar o tema", diz a gaúcha, que comemora avanços na área da comunicação, ao longo dos últimos anos. "Hoje, se você procurar por 'sexualidade e cadeirante' na internet, já encontra artigos e blogs".

Juliana tornouse cadeirante aos 19 anos, em decorrência de uma inflamação na medula espinhal. Ela não era mais virgem quando teve a lesão, e enfrentou dificuldade para recomeçar a vida sexual. "Fiquei cinco anos sem fazer sexo. Foi estranho perder a sensibilidade do seio para baixo e passei por um longo processo de readaptação. Atualmente, sou feliz e conheço meus prazeres. Por estar bemresolvida e para ajudar os outros, ministro palestras informativas sobre o assunto", orgulhase.

Mas como é possível remanejar o prazer? A pessoa com deficiência física precisa reaprender a ativar sua sexualidade, encontrando pontos eróticos antes adormecidos pelo vigor físico. A pele é nosso maior órgão sexual, então, se há a perda da sensibilidade é preciso encontrar novas formas de estimular o cérebro. "Por exemplo, ver o que está acontecendo dá muito tesão. Eu sei o que sentia quando alguém passava a mão na minha perna, então vendo, eu reativo a sensação na minha cabeça", conta a escritora.


Márcio Linhares, psicólogo clínico e especialista em sexualidade humana afirma que não existe uma fórmula para alcançar a satisfação e que isso deve ser trabalhado individualmente. "A melhor maneira para se descobrir uma zona erógena é exercitando, buscando a máxima sensibilidade possível nos mais variados pontos do seu corpo. Vale lembrar que a capacidade de se sentir ainda um sujeito sensível às excitações é deixada clara na presença de sonhos eróticos e outras manifestações do tipo", exemplifica. "Cada deficiência física implica em variações de possibilidades e percepções do próprio corpo e do outro. A maior parte das lesões medulares, por exemplo, resulta na diminuição de sensibilidade genital, e a atenção desta pessoa poderá ser dirigida a outras áreas para a obtenção de prazer", diz Oswaldo Rodrigues Junior, psicoterapeuta do Instituto Paulista de Sexualidade. Segundo ele, somente uma pessoa orientada para esta busca conseguirá produzir esta percepção erótica em áreas extragenitais. E como conseguir essa orientação? Conversando com diferentes pessoas (com deficiência ou não), especialistas e, o mais eficaz, com o parceiro sexual. "É bom você falar, antes da relação, do que gosta e qual é o modo mais fácil e prazeroso. Assim, não há perigo de acontecer algum dano aos membros sem sensibilidade", diz Cynthia Pinheiro, estudante de desenho industrial, paraplégica devido a um acidente automobilístico há quatro anos. A jovem afirma que sua vida sexual não é muito ativa devido à sua personalidade mesmo. "Eu era assim antes da cadeira, mas confesso que uma coisa mudou mais ainda: agora eu prefiro ter intimidade com a pessoa antes de ter relações sexuais, para não haver nenhum tipo de constrangimento. E, em minha opinião, é muito importante a outra pessoa ter um conhecimento básico sobre nossa deficiência e de como funciona nosso corpo agora". A estudante ainda conta que já namorou um cadeirante e compara o sexo quando o parceiro tem deficiência ou não. "Na relação sexual com outro cadeirante não dá pra inventar muito, mas nem por isso deixa de ser prazerosa - basta que ambos entendam as limitações um do outro. Já com a pessoa que não tem deficiência, na prática, fica mais fácil, mas acontece muito de a pessoa sem a deficiência ficar perdida na hora, sem saber o que fazer com medo de machucar a pessoa com deficiência".

"Acho engraçado as pessoas pensarem que só porque você tem deficiência vai ter de se relacionar apenas com quem também tem", diz Juliana Carvalho.
Páginas sobre sexualidade
Os tabus sobre a relação sexual entre as pessoas com deficiência ainda são muito discutidos na sociedade e especialistas. Pensando em desmistificar o tema e diminuir o sentimento de vergonha e o isolamento afetivo que muitos se condenam, o psicólogo Fabiano Puhlman Di Giralamo escreveu o livro A revolução sexual sobre rodas - conquistando o afeto e a autonomia, da Editora O Nome da Rosa. Por ser tetraplégico e especialista em integração de pessoas com deficiência, o autor priorizou o esclarecimento das principais dúvidas sobre tratamentos, recursos e atitudes que devem ser mantidas para uma sexualidade livre e longe de medos. E, segundo o psicólogo, para que isso aconteça, deve-se primeiro conquistar a autonomia e se aceitar, e assim, a potência sexual fluirá naturalmente.
www.nomedarosa.com.br
Oswaldo complementa: "como existe uma limitação de movimentos por falta de sensibilidade, a atenção ao corpo do outro é mais relevante para não se forçar algum movimento que machuque o genital"

Márcia Gori, presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência de São José do Rio Preto e apresentadora do programa Diversidade Atual, na RPTV, canal 30, vai no mesmo caminho: "não vamos ter impulsividade com pessoas que têm fragilidade, mas o sexo pode ser satisfatório se existir vontade e delicadeza de ambas as partes. É preciso saber ouvir, sentir, curtir, gostar e desejar, e a pessoa com deficiência pode conduzir o parceiro nas posições mais agradáveis".


Foto de Márcia Gori e Faraoni Fontes na campanha Devoteísmo: uma questão de escolha...Márcia fez uma exposição na Reatech 2011 com o tema: Toda nudez será revelada.
Paraplégica desde os 19 anos, quando sofreu um acidente de carro, ela já teve relações sexuais tanto com parceiros com deficiência quanto sem. "Nos dois casos é importantíssimo que um conheça os gostos e as limitações do outro - desse modo, a chance de acertar na hora do sexo é bem maior. E há algumas regrinhas práticas antes do rala e rola: esvaziar a bexiga e estar com o intestino limpo são cuidados importantes para não acontecerem acidentes desagradáveis", ensina. Quanto às posições, os especialistas apontam que o conforto e a sensibilidade devem dosar a relação, já que, quanto mais confortável o parceiro estiver, melhores serão as chances de satisfação no ato. Oswaldo dá uma boa dica: "Pessoas com lesões medulares podem fazer bom uso de cadeiras de balanço, dessas que a gente encontra em parques de diversão de crianças. Seria necessária uma adaptação no quarto com estes assentos móveis, mas o esforço compensa, já que permitirão um tipo de movimento mais fácil durante a relação".

Juliana também opina: "As posições mais confortáveis para o cadeirante são por baixo, de ladinho e aquela em que ficamos de perna aberta e barriga para baixo". Se a falta de movimento já não permite mais à pessoa mexer a cintura, Cinthya tem a solução: "um travesseiro embaixo do quadril pode fazer milagres".

Os cuidados que a relação sexual com uma pessoa com deficiência física pede não devem ser encarados como perda ou algo de outro mundo. Pelo contrário. Todas as cautelas devem ser tomadas para que a relação não gere cansaço, dificuldades, desconforto, dores e desânimo - como em qualquer transa. "Uma relação com uma pessoa com deficiência vai requerer uma ação mais longa de cuidados, carinhos e preliminares. Massagens com óleos, talcos e outros materiais que despertem satisfação e prazer por outras janelas sensoriais (olfato, audição, tato, visão, paladar) vão potencializar o clima e o prazer para a parceria", diz Linhares.

A raiz teórica e prática do problema!
Tanto pela recorrência, quanto pela relevância, a questão da impossibilidade da prática sexual, seja do ponto de vista motor ou psicológico, gera conteúdo de estudos e análises, como demonstra literalmente a obra: Inclusão e Sexualidade: na voz de pessoas com deficiência física, publicada pela Editora Juruá, e assinada pela Doutora no assunto Ana Cláudia Bortozolli Maia. A abordagem do livro supre o lado teórico com explicações esclarecedoras sobre relacionamentos familiares e amorosos, preconceitos sociais, estigmas e dificuldades orgânicas e encerra a discussão prática com relatos emocionantes dos personagens da vida real, ou seja, das pessoas com deficiência física. Para quem se destina a leitura?
- Psicólogos, educadores, profissionais da área da saúde, pessoas com deficiências e seus familiares, quanto para aqueles que se interessam pelo assunto. Para outras informações, acesse:
www.jurua.com.br
"Não podemos nos esquecer de incentivar a pessoa com deficiência a usar preservativo",fala Márcia Gori.



Paralisia cerebral
O preconceito costuma se multiplicar quando o assunto inclui pessoas com paralisia cerebral. Geralmente confundida com deficiência intelectual, na verdade a lesão é catalogada como deficiência física, que pode gerar ou não danos intelectuais. Quem vê uma pessoa com essa paralisia, com dificuldade de andar ou com fala dificultosa - algumas das características resultantes -, pode achar (erroneamente) que sua vida sexual não existe. "Uma pessoa com paralisia cerebral pode ter as mesmas habilidades e sensibilidades que uma pessoa sem a lesão", explica Fabiano Puhlmann, especialista em acessibilidade e educador sexual. Isto vale também para dificuldades, falhas, decepções... Dependendo do grau, a paralisia pode, sim, trazer dificuldades na hora do sexo. E, de novo: a conversa entre os parceiros pode tornar tudo mais fácil.

Com todos os cuidados necessários que uma transa saudável e gostosa pede, qualquer pessoa pode ter uma vida sexual ativa. Basta que ela se permita e busque as sensações que a vida proporciona. Como bem diz Márcio Linhares: "fundamental na vida da pessoa com deficiência física é nunca desistir de qualquer possibilidade de uma vida integrada. Busque as experiências. Troque com pares, amigos, mentores, médicos, terapeutas, enfim, com o mundo. Tenha certeza que sempre haverá uma porta entreaberta ou uma janela para o mundo comum. Podemos encontrar alguns entraves, mas sempre podemos nos esforçar para superálos. JeanPaul Sartre deixou uma pensata que serve para balizar qualquer um de nós e nos dá força para seguir em frente: "O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós".

Use sua criatividade
Produtos eróticos ajudam a exercitar sua imaginação. Um deles é a cadeira elástica Intimate Rider (www.intimaterider.com). Importada, funciona como uma espécie de mola, que ajuda nos movimentos. Outra dica é o blog Mão na Roda (http://maonarodablog.com.br) traz uma lista com endereços de motéis adaptados das principais capitais das cinco regiões brasileiras, incluindo algumas cidades do interior paulista.



1 Toque- Vela de massagem corporal Germaine de Capuccini: ao derreter, vira um óleo de massagem sedutor. www.germaine.com.br
2 Discrição- Aguce sensações com o vibrador discreto em formato de pincel de maquiagem, que também pode ser usado para realmente aplicar o blush. www.redemel.com.br
3 Aroma- Inside Pheros Black: perfume à base de feromônios que despertam o libido. www.revelateurs.com.br
4 Doce- Óleo de Massagem Corporal Tuttifrutti. www.hotflowers.com.br
5 Sensual- Conjuntos maravilhosos que levantam a autoestima de qualquer mulher (e atiçam o parceiro) www.demillus.com.br

Serviço
Conselho Estadual de Assuntos das Pessoas com Deficiência
(CEAPcD )
http://ceapcd.blogspot.com
(17) 3222-2041

Instituto Paulista de Sexualidade
www.inpasex.com.br
11 3662-3139
http://revistasentidos.uol.com.br/inclusao-social/64/artigo215306-1.asp

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